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domingo, 7 de março de 2010


Queridos,
a revista entra em recesso de aproximadamente 15 dias.
Até lá, vocês podem aproveitar para pesquisar em nossos arquivos onde encontrarão mais de 200 poemas ilustrados, além dos belos posts das colunas da Sueli, do César, do João Paulo e da Camilla.
Abraço a todos e até breve!
dana paulinelli

sábado, 6 de março de 2010

Clarice Lispector > Eternidade


Definia eternidade e as explicações nasciam fatais como as pancadas do coração. Delas não mudaria um termo sequer, de tal modo eram sua verdade. Porém mal brotavam, tornavam-se vazias logicamente. Definir a eternidade como uma quantidade maior que o tempo e maior mesmo do que o tempo que a mente humana pode suportar em idéia também não permitiria, ainda assim, alcançar sua duração. Sua qualidade era exatamente não ter quantidade, não ser mensurável e divisível porque tudo o que se podia medir e dividir tinha um princípio e um fim. Eternidade não era a quantidade infinitamente grande que se desgastava, mas a eternidade era a sucessão. 

Então Joana compreendia subitamente que na sucessão encontrava-se o máximo de beleza, que o movimento explicava a forma - era tão alto e puro gritar: o movimento explica a forma!- e na sucessão também se encontrava a dor porque o corpo era mais lento que o movimento de continuidade ininterrupta.

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p.43,44.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Manuel Bandeira > Rondó dos Cavalinhos

                      
Os cavalinhos correndo, 
E nós, cavalões, comendo... 
Tua beleza, Esmeralda, 
Acabou me enlouquecendo. 

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo... 
O sol tão claro lá fora, 
E em minh'alma - anoitecendo! 

Os cavalinhos correndo, 
E nós, cavalões, comendo... 
Alfonso Reyes partindo,
E tanta gente ficando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso, 
A Europa se avacalhando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh'alma - anoitecendo!

BANDEIRA, Manuel. 50 poemas escolhidos pelo autor. São Paulo: Cosac Naify, 2006. p.44.
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Imagem: Arthur Bispo do Rosário, Carrossel, s.d., madeira, borracha, plástico, tecido e linha e metal, 58 x 54 cm. Museu Bispo do Rosário Arte Contemporanea, Rio de Janeiro. {Mais um delicioso regalo da Fe Carvalho.}

quinta-feira, 4 de março de 2010

Imagens da História > Magia afrodisíaca


No Antigo Egipto, o acto mágico não era entendido como bruxaria de segunda linha, mas, pelo contrário, tinha o carácter de uma prática sagrada, já que continha a força criativa que existira no estabelecimento do universo. Mesmo a magia privada tinha um estatuto importantíssimo no quotidiano do homem egípcio, servindo quer para proteger da doença, quer para impedir que as privações o atingissem.

Os rituais mágicos empreendidos eram diversos, comportando palavras e ingredientes criteriosamente seleccionados, sendo realizados em momento adequado e propício ao bom efeito desejado. Por exemplo, julgava-se que os rituais teriam mais efeito ao amanhecer, quando as forças cósmicas se renovam. A potenciação do ritual, nalguns casos, passava ainda pela pureza do oficiante do ritual, conseguida por exemplo pela abstinência da carne de porco (ou de peixe) ou mesmo por meio de procedimentos especiais como a circuncisão ou a rapagem do cabelo e dos pêlos do corpo. Alguns papiros greco-egípcios indicam mesmo que o oficiante da magia não podia ter relações sexuais durante três ou sete dias.

No documento conhecido por Papiro Demótico de Londres-Leiden, encontra-se a descrição de um ritual destinado a obter o amor de uma mulher. De início, o mágico deveria fazer a invocação das deusas associadas com o olho solar, solicitando então que o poder de Rá entrasse no óleo perfumado que ele usaria como afrodisíaco. No passo seguinte, o mágico deveria colocar um peixe preto do Nilo nesse óleo balsâmico, peixe esse que tinha sido previamente guardado num frasco, juntamente com uma planta relacionada com Ísis. As palavras mágicas associadas a este ritual eram então ditas sete vezes sobre a mistura conseguida, durante sete dias e sempre pela manhã. Assim, quando o mágico quisesse dormir com a mulher desejada, bastar-lhe-ia untar a cabeça com o íctico óleo perfumado. Supõe-se que depois do banho, já que o amor pode até ser cego, mas não consta que seja anósmico.
J-P Galhano

Cf. PINCH, Geraldine. Magic in Ancient Egypt. London: British Museum Press, 1994.
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Este post faz parte da coluna mensal Imagens da História, assinada por João Paulo Galhano.

Da vocação de Valentina


Valentina se expandia e à medida que ela se expandia mais e mais confusa ela se sentia. Valentina mal se tornara uma moça-elefante e já lhe perguntavam sobre sua vocação. Se Valentina fosse apenas uma moça, já seria difícil conhecer de antemão a sua profissão. Se Valentina fosse apenas um elefante, terrível seria a sua condição. Elefante em estado de pureza é de sincera crueza. Valentina é uma moça-elefante e vocação de moça-elefante é um enigma. O enigma da singularidade. Mas Valentina era apenas uma moça-elefante e lhe perguntavam sobre sua vocação. Elefante não vem com bula, respondia aborrecida, na ira dos recém hormônios. Mas a resposta aborrecida alterava também os ânimos dos que queriam uma função para aquela que não passava de uma condição. Valentina precisa fazer um teste vocacional, diziam seus pais. Aborrecida, Valentina foi testar sua vocação. 

O examinador de vocações era uma homem taciturno. Valentina lhe perguntou se ele tinha encontrado a sua própria vocação. O homem ficou ainda mais taciturno. Ele mandou que Valentina dissesse o que lhe vinha à mente ao ver alguns borrões de tinta. O taciturno dizia o nome da lâmina, a moça-elefante cortava com ela a realidade. Aborrecida, Valentina foi testar sua vocação. 

Lâmina 1: Algumas vértebras conseguem se deslocar da coluna, quebram e sequestram algumas costelas e o pássaro com asas de costelas partidas voa para fora do corpo. A parte que quer ser leve desprende-se do todo e voa. 




Lâmina 2: Desejo, beijar alguém que também tenha tromba, ainda que esse encontro sangre dois elefantes. 





Lâmina 3: Duas mulherzinhas cozinham suas vidas em um caldeirão. Seus seios querem se encontrar na borboleta, mas elas pensam em cachimbos e assim mantêm o fogo brando. 




Lâmina 4: Aladim saindo de sua urna fúnebre para realizar pedidos não tão vitais. 





Lâmina 5: Mãos femininas que deveriam tricotar sapatinhos de bebê tecem o coelho de Alice. 




Lâmina 6: Um violoncelo invejoso do músico cria braços para sufocar o artista. 





Lâmina 7: Dois gatos univitelinos presos um ao outro pelo sexo têm as cabeças independentes para pensar e chorar cada qual sua condição. 




Lâmina 8: Um anjo de luz e cor cai no solo, separa um casal e se transforma em suas sombras. 




Lâmina 9: O nada corta espaço em todas as cores e formas, mas as cores e formas mais medrosas são mais propícias à navalha do nada. 





Lâmina 10: Cavalos marinhos festejam a entrada do mar novo aos pés da Torre Eiffel. Em Paris o oceano é mais alegre. Bonne merde





O taciturno se espantou e tamanho foi seu espanto que não-taciturno ele se tornou. Valentina lhe perguntou se ele descobrira a vocação de Valentina. _Descobri minha própria vocação, respondeu o não-taciturno, deixando as lâminas na mesa e cortando caminho em direção à porta. Aborrecida, ela lhe perguntou novamente qual seria a vocação de Valentina. _Valentina tem suficiente imaginação para qualquer vocação, gritou o não-taciturno, ofegante, já cortando os lances de escada. Ninguém mais sem vocação do que alguém com todas as vocações, pensou Valentina, de cabeça quente com sua condição. E neste estado de confusão ela ainda devia aos pais uma satisfação. Valentina lhes disse a verdade: testara sua vocação e com louvor passara no teste. Valentina nasceu para causar espanto e, em sua originária vocação, quão talentosa é Valentina em ação.
dana paulinelli
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Este post faz parte da coluna Contos que contêm Valentina, assinada por dana paulinelli. Os contos que contêm Valentina contêm poesia, filosofia e, obviamente, contêm Valentina, uma menina elefante cuja angústia pesa uma tonelada, mas que com uma boa dose de valentia enfrenta filosoficamente as questões de sua existência.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Orides Fontela > Questões

                       a)                                                O                                                fruto                                                arquitetado:                                                como o sermos?                                                b)                                                Difícil o real.                                                O real fruto.                                                Como, através                                                da forma                                                distingui-lo?                                               c)                                               Aguda                                               a                                               luz                                               sem forma                                               do que somos.                                               Como, sem vacilações                                               vivê-la?
FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify, Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006. p.59.

terça-feira, 2 de março de 2010

Cecília Meireles > Explicação


O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.
Alguém conta a minha história
E alguém mata os personagens.)

FERNANDA, Maria (org.). Melhores poemas de Cecília Meireles. São Paulo: Global Editora, 2002. 
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