Valentina se expandia e à medida que ela se expandia mais e mais confusa ela se sentia. Valentina mal se tornara uma moça-elefante e já lhe perguntavam sobre sua vocação. Se Valentina fosse apenas uma moça, já seria difícil conhecer de antemão a sua profissão. Se Valentina fosse apenas um elefante, terrível seria a sua condição. Elefante em estado de pureza é de sincera crueza. Valentina é uma moça-elefante e vocação de moça-elefante é um enigma. O enigma da singularidade. Mas Valentina era apenas uma moça-elefante e lhe perguntavam sobre sua vocação. Elefante não vem com bula, respondia aborrecida, na ira dos recém hormônios. Mas a resposta aborrecida alterava também os ânimos dos que queriam uma função para aquela que não passava de uma condição. Valentina precisa fazer um teste vocacional, diziam seus pais. Aborrecida, Valentina foi testar sua vocação.
O examinador de vocações era uma homem taciturno. Valentina lhe perguntou se ele tinha encontrado a sua própria vocação. O homem ficou ainda mais taciturno. Ele mandou que Valentina dissesse o que lhe vinha à mente ao ver alguns borrões de tinta. O taciturno dizia o nome da lâmina, a moça-elefante cortava com ela a realidade. Aborrecida, Valentina foi testar sua vocação.
Lâmina 1: Algumas vértebras conseguem se deslocar da coluna, quebram e sequestram algumas costelas e o pássaro com asas de costelas partidas voa para fora do corpo. A parte que quer ser leve desprende-se do todo e voa.
Lâmina 2: Desejo, beijar alguém que também tenha tromba, ainda que esse encontro sangre dois elefantes.
Lâmina 3: Duas mulherzinhas cozinham suas vidas em um caldeirão. Seus seios querem se encontrar na borboleta, mas elas pensam em cachimbos e assim mantêm o fogo brando.
Lâmina 4: Aladim saindo de sua urna fúnebre para realizar pedidos não tão vitais.
Lâmina 5: Mãos femininas que deveriam tricotar sapatinhos de bebê tecem o coelho de Alice.
Lâmina 6: Um violoncelo invejoso do músico cria braços para sufocar o artista.
Lâmina 7: Dois gatos univitelinos presos um ao outro pelo sexo têm as cabeças independentes para pensar e chorar cada qual sua condição.
Lâmina 8: Um anjo de luz e cor cai no solo, separa um casal e se transforma em suas sombras.
Lâmina 9: O nada corta espaço em todas as cores e formas, mas as cores e formas mais medrosas são mais propícias à navalha do nada.
Lâmina 10: Cavalos marinhos festejam a entrada do mar novo aos pés da Torre Eiffel. Em Paris o oceano é mais alegre. Bonne merde!
O taciturno se espantou e tamanho foi seu espanto que não-taciturno ele se tornou. Valentina lhe perguntou se ele descobrira a vocação de Valentina. _Descobri minha própria vocação, respondeu o não-taciturno, deixando as lâminas na mesa e cortando caminho em direção à porta. Aborrecida, ela lhe perguntou novamente qual seria a vocação de Valentina. _Valentina tem suficiente imaginação para qualquer vocação, gritou o não-taciturno, ofegante, já cortando os lances de escada. Ninguém mais sem vocação do que alguém com todas as vocações, pensou Valentina, de cabeça quente com sua condição. E neste estado de confusão ela ainda devia aos pais uma satisfação. Valentina lhes disse a verdade: testara sua vocação e com louvor passara no teste. Valentina nasceu para causar espanto e, em sua originária vocação, quão talentosa é Valentina em ação.
dana paulinelli
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Este post faz parte da coluna Contos que contêm Valentina, assinada por dana paulinelli. Os contos que contêm Valentina contêm poesia, filosofia e, obviamente, contêm Valentina, uma menina elefante cuja angústia pesa uma tonelada, mas que com uma boa dose de valentia enfrenta filosoficamente as questões de sua existência.