quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Michel Deguy > Que não houve nada mais


QUE NÃO HOUVE NADA MAIS - senão o fato de que nada se passou, nada além do breve encontro e que nos dissemos tudo; a troca do interminavelmente breve em brevemente interminável; que nada teve lugar a não ser essa passagem, esse falso todo, destruído pelo saber de que não é nada - é isso mesmo que cada um evoca encontrando o outro: você se lembra? Da chuva, da mostarda, do seu vestido naquele dia; e cada um sorri. E é esse nada que nos faz falta. Não há nada que não nos faça falta.

DEGUY, Michel. A rosa das línguas. Tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2004, p.215.
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Imagem: Gustave Caillebotte, Jeune homme à la fenêtre, 1876, óleo sobre tela, 116,2 x 80,9 cm, coleção particular.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Foto-grafando Frida

Pelos olhos de Frida, ou uma joia para Diego.

Poema inédito de Adriana Versiani,
ilustrado por dana paulinelli.



Diego amava Frida que amava suas joias.
Mas o que significava a palavra "joias" para Frida?
O que Diego entendia daquilo que era o amor de Frida?
Um dia, visitaram juntos o santuário das mariposas monarcas no estado
de Michoacán.
Ali elas vivem.


Ali Diego amou Frida que se despiu de suas jóias.

Na janela do meu quarto, durante a noite em que o céu pareceu perder-se para sempre, com os dedos desenhei uma porta. Através dela toquei os cabelos castanhos da menina que andava comigo, quando ainda imaginava aeroplanos no céu de Coyoacán. Eu contei a ela os meus segredos e dançamos e escutamos nossos sons. Uma ideia nos levou até o pátio onde nos deitamos sob a sombra de uma árvore imensa.


Diego olhou para Frida que mergulhava a roupa suja na noite anterior, dentro da velha bacia de alumínio. Saia uma fuligem preta da chaminé da metalúrgica que cobria toda a cerâmica da varanda. Diego olhou para Frida que escrevia uns versos na cerâmica.

                        Diego... Minha mãe
                        durante todo dia sinto sono cansaço e desespero
                        Diego...Meu pai
                        eu vivo no ar
                        Diego...Meu filho
                        o espelho guarda minha dor


                                                             No meu coração...Diego
                                                             Na minha loucura...Diego
                                                             Nas minhas vértebras...Diego


                        Ele nas tramas do papel
                        Ele no risco do grafite
                        Ele na gênese do metal


No centro dos meus olhos... Diego.

Uma estrutura de ferro sustenta o mural.
Frida dorme sobre a tábua do andaime.
Ela sonha e Diego não adivinha:
os pecados dos seus vizinhos, a caixa enterrada no quintal, a rosa mística de Frida.
Um líquido quente corre em Diego que teme:
os pecados dos seus vizinhos, a caixa enterrada no quintal,
o dia em que Frida dormirá para sempre sobre a tábua do andaime.

                  Tormento, porque chamo por meu Diego?
                  Ele nunca esteve, Ele jamais estará.

Calor escaldante na Cidade do México.
Frida, as pálpebras pintadas de roxo, fechou-se em luto.

Diego a fez chorar.

***

Adriana Versiani dos Anjos – Ouro Preto – MG,1963. Tem cinco livros de poemas publicados, dentre eles, A Física dos Beatles (2005), Conto dos Dias (2007), o virtual Explicação do Fato (2008 – Germina literatura – Revista Virtual) e Livro de Papel (2009). Integrou o Grupo Dazibao de Divinópolis/Belo Horizonte. Foi co-organizadora da Coleção Poesia Orbital e do Jornal Inferno. Fez parte do conselho editorial da Revista de Literatura Ato. É editora do Jornal DEZFACES e colunista do Imaginário Poético. Contato: driarroba@gmail.com

Imagens (de cima para baixo):
(1) sem referência.
(2) (3) Julien Levy, Frida Kahlo, 1938, fotografia, New York.
(4) dana paulinelli, Foto-grafando Frida, 2010, colagem digital  sobre fotografia de Imogen Cunningham (Frida Kahlo, 1931, San Francisco, Califórnia) inspirada em obra de Frida Kahlo (Diego e Eu, 1949, óleo sobre tela, 28 X 22cm, Chicago, Coleção Sam e Carol Wiliams). Clique aqui para conhecer a fotografia de Cunningham e aqui para conhecer a obra de Frida.

Assista abaixo um vídeo emocionante com cenas reais de Frida Kahlo e Diego Rivera. Se você está recebendo este post via e-mail, clique aqui para assistir o vídeo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Fernando Pessoa > Pensar como espiritualistas, agir como materialistas





Pensar como espiritualistas, agir como materialistas. Não é absurda a doutrina: é, afinal, a doutrina espontânea da humanidade inteira.

O que é a vida da humanidade senão uma evolução religiosa sem influência sobre a vida quotidiana?

A humanidade é atraída pelo ideal, e quanto mais alto e anti-humano for o ideal, mais (se for progressiva) será atraída a prática da sua vida civilizada, que, por isso, vai de povo para povo, de era para era, de civilização para civilização. A humanidade civilizada abre os braços a uma religião que prega a castidade, a uma religião que prega a igualdade, a uma religião que prega a paz. Mas a humanidade normal procria, combate-se e contrasta sempre; assim, até que acabar, sempre fará.

No mesmo tempo, na mesma sociedade, o homem normal ateu procede em todo [o] social como o homem normal teísta; pareceria contudo que em poucas coisas devem proceder paralelamente. Não há tese ou teoria que afecte a atmosfera que se respira.

PESSOA, Fernando. A educação do estóico. In: ZENITH, Richard (ed.). Obra essencial de Fernando Pessoa. Prosa íntima e de autoconhecimento. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007. p.323.


Imagens: Nick Veasey, fotografias em raio-x. Veja outras obras do artista em seu sitewww.nickveasey.com/

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

imaginário na rede



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Aproveito a nota editorial para lembrar que a revista é melhor visualizada no Firefox e no Chrome e deixo os links para download destes dois browsers que ganham de 10 a 0 do Internet Explorer.
Abraço a todos,
dana paulinelli

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Julio Cortázar > Teoria do caranguejo


Tinham construído a casa no limite da selva, orientada para o sul evitando assim que a umidade dos ventos de março se somasse ao calor que a sombra das árvores atenuava um pouco.

Quando Winnie chegava

Deixou o parágrafo no meio, empurrou a máquina de escrever e acendeu o cachimbo. Winnie. O problema, como sempre, era Winnie. Quando tratava dela a fluidez se coagulava numa espécie de

Suspirando, apagou numa espécie de, porque detestava as facilidades do idioma, e pensou que não poderia continuar trabalhando até depois do jantar; as crianças logo iam chegar da escola e ele teria que preparar o banho, fazer a comida e ajudá-las nos seus

Por que no meio de uma enumeração tão simples havia como um buraco, uma impossibilidade de continuar? Era incompreensível, pois tinha passagens muito mais árduas que se construíam sem nenhum esforço, como se de algum modo já estivessem prontas para incidir na linguagem. Obviamente, nesses casos o melhor era

Largando o lápis, pensou que tudo se tornava abstrato demais; os obviamente os nesses casos, a velha tendência a fugir de situações definidas. Tinha a impressão de estar se afastando cada vez mais das fontes, de organizar quebra-cabeças de palavras que por sua vez

Fechou abruptamente o caderno e saiu para a varanda.

Impossível deixar essa palavra, varanda.


Julio Cortázar
Triunfo, Madri, nº 418, 6 de junho de 1970


CORTÁZAR, Julio. Papéis inesperados. Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2010, p. 80. 
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Imagem: Kumi Yamashita, City view, 2003, alumínio, luz e sombra, exposição permanente no 2o andar do Nanba Parks Tower, Tokyo, Japão

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Manoel de Barros > Diário de Bugrinha (excertos)

1925

22.1
O nome de um passarinho que vive no cisco é joão-ninguém. Ele parece com Bernardo.


23.2
Lagartixas têm odor verde.

2.3
Formiga é um ser tão pequeno que não agüenta nem neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. 
Achei fácil.


23.2
Quem ama exerce Deus _a mãe disse. Uma açucena me ama. 
Uma açucena exerce Deus?

2.3
Eu queria crescer pra passarinho...

5.3
A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo dos olhos. Vô! o livro está de cabeça para baixo.
Estou deslendo.





5.6
O frio se encolheu nos passarinhos. Ó noite congelada de jacintos!
Eu estou transida de pétalas.


7.8
O pai trouxe do campo um filhote de urubu. 
Ele é branco e já fede.





12.8
As garças descem nos brejos que nem brisas. 
Todas as manhãs.



10.9
Um sapo feneceu 3 borboletas de uma vez atrás de casa.
Ele fazia uma estultícia?




13.9
A mãe bateu no mano preto. Falou que eu não apanhava porque não dei motivo. Subo no pico do telhado para dar motivo. Aqui de cima do telhado a lua prateava. A mãe disse que aquilo não era motivo.

19.9
Uma égua iniciava meu irmão. O pai ralhou com ele. Meu irmão foi entrando para inseto até desaparecer. Ficou dentro do mato até amanhã.

1.10
Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com árvore. As plantas querem o corpo dele para crescer por sobre. Passarinho já fez poleiro na sua cabeça.

11.11
A mãe disse que Bernardo é bocó. Uma pessoa sem pensa.

5.2
Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres.



29.2
Hoje o Lara morreu picado de cobra. Fizeram seu caixão de costaneiras. Meu avô encostou no caixão. Ué, eu que morri e quem está no caixão é o Lara! Meu avô enxergava mal.

2.1.1926
Catre-velho é um ser confortável para moscas. 
                                                      Ele nem espanta algumas.

 12.1
Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo. 
Escutei um perfume de sol nas águas.


1.3
As árvores me começam.

1.4
Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde.

10.4
Os patos prolongam meu olhar... 
Quando passam levando a tarde para longe
eu acompanho...






21.4
Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha alegria ficou sem voz.



22.4
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha mãe gostou. É assim:

De noite o silêncio estica os lírios.




FIM

BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.29-33.


O poeta Manoel de Barros concorre ao prêmio de 
Conheça os finalistas e vote!