A cada minuto pensamos ter na mão um começo, e achamos que deveríamos traçar um plano para todos nós. Se as velocidades não nos agradam, inventemos outra coisa! Por exemplo, algo bem lento, uma felicidade nevoenta como uma serpente marinha misteriosa e com o profundo olhar bovino com que já os gregos sonhavam. Mas não é nada disso. A marcha do tempo nos domina. Andamos com ela dia e noite, e fazemos dentro dela todo o resto; nos barbeamos, comemos, amamos, lemos livros, exercemos nossa profissão, como se as quatro paredes estivessem imóveis; e o inquietante é saber que as ...
[Continue lendo]Meus livros (que não sabem que eu existo)São tão parte de mim como este rostoDe fontes grises e de grises olhosQue inultimente busco nos cristaisE que com a mão côncava percorro.Não sem alguma lógica amarguraPenso que as palavras essenciaisQue me expressam se encontram nessas folhasQue não sabem quem sou, não nas que escrevi.Melhor assim. As vozes dos mortosVão me dizer para sempre. BORGES, Jorge Luis. Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2009. p.191.
[Continue lendo]o ritodo diao ríctusdo diao riscodo dia EU?UE? olhopor olhodentepor denterugapor ruga EU?UE? o fioda barbao fioda navalhaa vidapor um fio EU?UE? mas a barbafeitaa máscararefeitamais um diaaceita EUEU PAES, José Paulo. Poesia completa. São Paulo: Cia das Letras, 2008. p.175-6.
[Continue lendo]DEVAGAR…ATENÇÃO, A 200 M, etc.(Cartaz de advertência na Rodovia dos Inconfidentes) devagar…atençãoa 200 mfiéis saindoda igreja devagar…atençãohá 200 anosfiéis saindoda igreja ÁVILA, Affonso. Homem ao termo. Belo Horizonte, 2008. p.197-9.
[Continue lendo]Eu queria desviar seu olhar para sempre. eu queria ser o único no mundo a não ter visto. essa mão podia não ter estado lá, afinal: nem eu tampouco, e comigo desaparecer o mundo. esse brinde. a imagem de tua morte.Ela amara a vida apaixonadamente de longe. sem a impressão de estar nela nem de fazer parte dela. infeliz, ela fotografava relvados tranquilos e felicidade familiar. êxtase paradisíaco, ela fotografava a morte e sua saudade.Enfim adequação exata da morte mesma à morte sonhada, a morte vivida, a morte mesma mesma. idêntica à ela mesma mesma.Puro precipício do amor.Adormecer como todo ...
[Continue lendo]Voz obstinada, por que insiste chamandopor um nome que não corresponde mais a mim?Não é do meu propósito que fiques ao longe sozinha.Nem tu sabes que espécie de saudade abrolha na noitee como o silêncio tenta mover-se inutilmente,quando diriges teus ímãs sonoros,sondando direções!Não é do meu propósito, ó voz obstinada,mas da minha condição.As aparências dispersaram-se de mim,como pássaros:que sol se pode fixar nesta existência,para te definir a minha aproximação?Minhas dimensões se aboliram nos limites visíveis:como podes saber onde me circunscrevo,e de que modo me pode o teu desejo atingir?Eu mesma deixei de entender a minha substância;tenho apenas o sentimento dos ...
[Continue lendo]Cada memória apaixonada tem suas madalenas e a minha -saiba disso, onde quer que você estiver- é o perfume do tabaco claro que me devolve à tua noite espigada, à lufada da tua pele mais profunda. Não o tabaco que se aspira, a fumaça que reveste as gargantas, e sim aquela vaga equívoca fragrância que o cachimbo deixa nos dedos e que em algum momento, em algum gesto despercebido, sobe com seu látego de delícias para encabritar a lembrança que tenho de ti, a sombra das tuas costas contra o branco velame dos lençóis. Não me olhes aí da tua ...
[Continue lendo]Nem treva nem caos. A treva imploraOlhos que possam ver, como o ouvidoTêm o som e o silêncio requerido,E o espelho, a forma que ali mora.Nem o espaço nem o tempo. Afinal,Sequer a deidade que premeditaO silêncio anterior à primordialNoite do tempo, que será infinita.O grande rio de Heráclito, o Obscuro,Seu curso misterioso não empreendido,Que do passado flui para o futuro,Que do olvido flui para o olvido.Algo que já padece. Algo que implora.Depois a história universal. Agora. BORGES, Jorge Luis. Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2009. p.165. ______ Nota sobre a imagem: “I leap outside and there I am ...
[Continue lendo]O verbo prorrogar entrou em pleno vigor, e não só se prorrogaram os mandatos como o vencimento das dívidas e dos compromissos de toda sorte. Tudo passou a existir além do tempo estabelecido. Em conseqüência não havia mais tempo. Então suprimiram-se os relógios, as agendas e os calendários. Foi eliminado o ensino de História. Para que História? Se tudo era a mesma coisa, sem perspectiva de mudança. A duração normal da vida também foi prorrogada e, porque a morte deixasse de existir, proclamou-se que tudo entrava no regime da eternidade. Aí começou a chover, e a eternidade se mostrou ...
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