“Gerando um intenso prazer, o ato filosófico se gesta numa intensa angústia: a angústia do desvendamento de um impasse, de um nó, de uma encruzilhada no meu existir, um nó que aparece atravessado entre mim e o meu interlocutor como um quisto que surgiu para nos separar e, ao mesmo tempo, como um filho que gestamos do nosso encontro, resultado de nossas dificuldades comuns e que descobrimos serem sobretudo dificuldades recíprocas. Transformar uma tal experiência em representações e em obras é criar os monumentos poéticos da história da humanidade. Vivenciá-la em palavras é fazer Filosofia.” SÔNIA VIEGAS Sônia Viegas (1944-1989) ...
[Continue lendo]Bem sei que, olhando pra minha cara,pra minha boca, triste e incoerente,pros gestos vagos de sombra incertaque hoje sou eu,minha loucura se faz tão clara,minha desgraça tão evidente,minha alma toda tão descoberta,que pensam: “Este, não bebeu…”Passei a noite, passei o diade cotovelos firmes na mesa,de olhos sobre o vinho perdidos,a testa pulsando na mão:e muros de melancoliasubiam pela sala acesa,inutilizando os gemidos,mas quebrando-me o coração.Deixei o copo no mesmo nível:bebida imóvel, espelho atento,onde -só eu- vi desabrochares,rosto amargo de amor!Vim da taverna ébrio de impossível,pisando sonhos, beijando o vento,falando às pedras, agarrando os ares…- Oh! deixem-me ir para onde eu ...
[Continue lendo]_É uma cidade igual a um sonho: tudo o que pode ser imaginado por ser sonhado, mas mesmo o mais inesperado dos sonhos é um quebra-cabeça que esconde um desejo, ou então o seu oposto, um medo. As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam um outra coisa._Eu não tenho desejos nem medos _declarou o Khan_, e meus sonhos são compostos pela mente ou pelo acaso._As cidades também acreditam ser obra ...
[Continue lendo]A roupa estendida ao vento Parece gente a viver Move-se em gestos sem tento Perante o meu pensamento Que não sabe senão ver. Mas o que fazem no mundo Os homens nos gestos seus Nada é mais firme ou profundo Que este ar nas roupas ao fundo Dos grandes quintais de Deus. E eu no meu solene estudo De como as cousas não são, No qual compreendo tudo, Vejo o branco agitar mudo Da roupa sem coração. E lembro, por diferença, A semelhança que há Entre a agitação intensa Da roupa livre e suspensa E aquela em que o homem ...
[Continue lendo]Em homenagem ao centenário de nascimento de Simone Weil (1909-1943) apresento aqui dois poemas desta filósofa fascinante: Nécessité e La Porte. Apresento os poemas em francês, seguidos das traduções para o português, feitas por Débora Mariz, e deixo ainda um link precioso com o áudio das traduções e comentários dos dois poemas pelo Prof. Fernando Rey Puente em entrevista concedida à Rádio UFMG. Bom proveito! dana paulinelli
[Continue lendo]Le cercle des jours du ciel désert qui tourneParmi le silence aux regards des mortels,Greule ouverte ici-bas, où chaque heure enfourneTant de cris si suppliants et si cruels; Tous les astres lents dans les pas de leur danse,Seule danse fixe, éclat muet d’en haut,Sans forme malgré nous, sans nom, sans cadence,Trop parfaits, que ne revêt aucun défaut; A eux suspendus, notre colère est vaine.Calmez notre soif si vous brisez nos coeurs.Clamant et désirant, leur cercle nous traîne;Nos maîtres brillants furent toujours vainqueurs. Déchirez les chairs, chaînes de clarté pure.Cloués sans un cri sur le point fixe au Nord,L’âme nue exposée ...
[Continue lendo]Ouvrez-nous donc la porte et nous verrons les vergers,Nous boirons ler eau froide où la lune a mis sa trace.La longue route brûle ennemie aux étrangers.Nous errons sans savoir et ne trouvons nulle place. Nous voulons voir des fleurs. Ici la soif est sur nous.Attendant et souffrant, nous voici devant la porte.S’il le faut nous romprons cette porte avec nos coups.Nous pressons et poussons, mais la barrière est trop forte. Il faut languir, attendre et regarder vainement.Nous regardons la porte; elle est close, inébranlable.Nous y fixons nos yeux; nous plerons sous le tourment;Nous la voyons toujours; le poids du temps ...
[Continue lendo]A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, ...
[Continue lendo]Com o passar dos anos me rodeiauma constante névoa refulgenteque aos poucos reduz todo o existentea algo informe e sem cor. Quase a uma idéia.A vasta noite elementar e o diacheio de gente são essa neblinade luz incerta e fiel que não declinae que espreita na aurora. Gostariade ver um rosto algum dia. Ignoroa inexplorada enciclopédia, o prazerde livros que minha mão sabe ler,as altas aves e as luas de ouro.Aos outros todos resta o universo;a minha penumbra, o hábito do verso. BORGES, Jorge Luis. Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2009, p.398.
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