domingo, 27 de dezembro de 2009

Flechas de Laocoon ---> Tò thaumázein



Se conseguires tirar os olhos dos olhos desse menino e prestares atenção à sua orelha esquerda, verás ali um pequeno aparelho de surdez. Este menino genuinamente espantado ouve sons pela primeira vez em sua vida. E tu, tu te espantas com o quê? Que espécie de som arregala os teus olhos? Os olhos de quem abrem os teus ouvidos? Que contrariedade congela o teu pescoço? Que buraco aberto interrompe os teus passos? Que touro enfurecido te faz saltar um muro? Com que tipo de toque os teus pêlos se eriçam? Que dor fecha a tua garganta? Que cena abre o teu sorriso? Que admiração te faz pensar? "Pois este estado é o mais próprio do filósofo: o admirar-se; com efeito, não há outro princípio da filosofia que não este”, diz o Sócrates platônico no Teeteto. Mas o que era o thaûma para os gregos? O que era o admirar-se, tò thaumázein? Segundo Vernant, no mito o thâuma é o maravilhoso, o assombro, mas com a filosofia "a admiração se faz questionamento, interrogação". Será mesmo? Serão estanques admiração e interrogação? Interrogo-te assombrada, Vernant. Como pode o ser humano ser um sem interrogação? Como pode o filósofo ser um sem admiração? E que tanto de espanto ou de medo ou de susto carrega consigo o thaumázein? Admirar-se, espantar-se, surpreender-se, maravilhar-se. Étonner, do latim extonare, ser atingido por uma tempestade, ser surpreendido, perturbar, amedrontar, mas também maravilhar-se, ficar impressionado diante deste espetáculo. Amaze: surpreender fortemente, encher de admiração. Stupire: espantar, surpreender, maravilhar. Mas, então, admirar-se e espantar-se são sinônimos e thaumázein é misto de gozo e de medo? Mas quem é capaz de admiração na massiva sociedade de imagens em ação? Quem, sem imaginação, é capaz de se assombrar com uma situação? Quem tem coragem de ver tudo novo de novo e não perder a razão? Quem é presente o suficiente para não se esconder nas imagens do passado e se assombrar mais uma vez como pela primeira vez? Mas como posso me assombrar novamente com um terremoto ou com a fome ou com a guerra ou com uma epidemia se nem mesmo me lembro se um dia me espantei com tais situações? Além disso, se o menino da foto tirar seu aparelho de surdez, não se assombrará novamente com o silêncio, pois apesar de agora vívido, é silêncio já vivido. Então, que aparelho de surdez preciso instalar em minha alma para ouvir o som do mundo como quando nasci? Mas não existe tal aparelho, tu me afirmas, sem assombro e sem questionamento. Mas câmera fotográfica há. E como achas que se sentiu o fotógrafo que conseguiu enxergar e apreender o momento acima? Assombrar-me-ia se um dia soubesse que ele ou ela não se assombrou. Boa foto é questão de foco. Tudo é uma questão de leitura, já disse eu nesta mesma coluna. Repito, à luz da iluminada Simone Weil: o mundo é o que lemos e lemos o que queremos. E digo agora: se está difícil ler de outro modo a realidade, sempre podes mudar algumas coisas de lugar. Não basta que mudes os móveis, muda as tuas próprias partes e com teus pedaços monta um ser atônito, como escreve o Poeta Manoel de Barros. E montando um ser atônito, montas um ser poético. Afinal, “a poesia nasce do espanto”, afirma Ferreira Gullar. Também o amor nasce do espanto. Portanto, se alguém te disser: _Não te espantes com meu amor. Não obedeça. Espanta-te com o pedaço de ti que é amado! Deixa-te espantar, inocente e interrogativamente. Espanta-te com a gratuidade! E quando vires alguém pular sete ondas no dia 1º de janeiro, espanta-te também com a sua parte de fé que se multiplica sete vezes sete, ano após ano. Por falar em fé, será que quando o Cristo afirma que o reino dos céus é das crianças, quer dizer, na verdade, que o reino dos céus é acessível àqueles que têm capacidade de thaumázein? Será que o thaumázein é arkhé, é princípio, não apenas da filosofia e da poesia, mas também da fé? Será que milagre não é senão o som velho do mundo velho a ressoar como se fosse o primeiro acorde de um mundo nascente? Milagre é conseguir ler a ordem por trás da necessidade? Então a foto acima revela um milagre? O milagre do menino surdo que ouve pela primeira vez um som que a nossos ouvidos nada mais é que uma música antiga em um disco arranhado tocando em uma vitrola herdada dos antepassados? Um sem número de perguntas e nenhuma resposta. Somente assombros e interrogações.

dana paulinelli

10 comentarios:

Tânia Meneghelli disse...

Oi Dana!

Que texto fantástico!!!!!!! Vou incluir entre meus favoritos, porque traduziu muito do que eu sentia sem saber expressar.

É verdade, o que é que não nasce do espanto? Admiração é simplesmente tudo. É saber que a gente está VIVO.

Parabéns por este espaço, pretendo acompanhar sempre.

Ah, também te agradeço muito por se tornar uma seguidora do meu cantinho, tá?

Um 2010 bem bacana pra você!

Beijoca!

dana paulinelli disse...

Eu que agradeço, Tânia!
Obrigada por tua presença tão simpática aqui no Imaginário!
Volte sempre!
2010 cheio de admiração p/vc!
Bjs.

Iremar Marinho disse...

Olá, Dana,
Não é toda hora que se vê uma página de tão alta qualidade e tão sublime, como este seu Imaginário.
Venho também agradecer sua visita e por acompanhar o meu Bestiário. Sinto-me privilegiado!

dana paulinelli disse...

Muito obrigada, Iremar!
Sinta-se em casa no IP!
Gostei bastante do Bestiário! Parabéns!
Abraço.

César Miranda disse...

Magnífico post, Dana. Um dos melhores que li este ano. Parabéns por tudo.

dana paulinelli disse...

Vc sabe bem que a tua interlocução tem parte nisso, César! Agradeço!
E eu que te parabenizo, pelo ser humano admirável que vc é! Teu ser me espanta!
Abraço grande.

sueli aduan disse...

Belíssimo post,Dana.
Parabéns!!!

Alisson da Hora disse...

Fantástico e pertinente por demais... ando estudando essa coisa do espanto, do estranhamento (se é que a gente pode chamar assim) frente a poesia. Texto pontual e belo.

dana paulinelli disse...

Obrigada, Sueli!
Abraço grande!

dana paulinelli disse...

Adoro a palavra estranhamento!
Não usei no txt pq ela não traduz bem o thaumázo, mas acho que o sentimento passa por aí.
Se vc está estudando a questão na poesia, pode usar um pouco da arte contemporânea (ready made, instalações e happenings) que faz uso da poesia p/causar o estranhamento no espectador. É um tema muito bacana.
Enfim, obrigada pela participação, Alisson.
Abraço grande!

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