“A vida está aqui. A vida é só isso. Lá há vida além disso? A vida, ei-la aí. É a vida, isso é a vida. É a vida aí na frente. A vida é a presente. A vida é a aqui tida. Tal vida é a que amamos. É a vida que é viva. É a vida aí cativa. É a vida que odiamos. É a vida visível. É a vida dos pés. É a vida e os cafés Que é a vida visível. Pois a vida é o vivo Dizer: vida!, agora, Já que a vida é a hora ...
[Continue lendo]Não sou nada.Nunca serei nada.Não posso querer ser nada.À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto,Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é(E se soubessem quem é, o que saberiam?),Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. ...
[Continue lendo]Carvão de lápiscarvão de idéia fixacarvão de emoção extintacarvão consumido nos sonhos. MELO NETO, João Cabral de. A lição de poesia. In MELO NETO, João Cabral de. Poesia completa. (1940-1980) Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986, pp. 424-425.
[Continue lendo]Mais alguns passos e ela voltou a se colocar diante de mim: _Você talvez imagine que eu seja uma criatura má. Quase todo mundo imagina isto. É sempre fácil julgar os outros. Mas posso lhe garantir, Betty, que as aparências sempre estiveram contra mim, nesta vida só tenho sido má por inconsciência ou impossibilidade. – Calou-se um minuto, como se pesasse as próprias palavras. – É verdade que nunca me preocupei em ser exatamente boa, mas…Então, a mim, que nunca havia pensado naquelas coisas, nem me detido ante problemas de tão grande profundidade, ocorreu um pensamento que quase subiu aos ...
[Continue lendo]Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar de flores. (Os objetos sem função têm muito apego pela abandono.) Também as latrinas desprezadas que servem para ter grilos dentro – elas podem um dia milagrar violetas. (Eu sou beato em violetas.) Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus. Senhor, eu tenho orgulho do imprestável! (O abandono me protege.) BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.57.
[Continue lendo]Quem fez esta manhã, quem penetrouÀ noite os labirintos do tesouro,Quem fez esta manhã predestinouSeus temas a paráfrases do touro,As traduções do cisne: fê-la paraAbandonar-se a mitos essenciais,Desflorada por ímpetos de raraMetamorfose alada, onde jamaisSe exaure o deus que muda, que transvive.Quem fez esta manhã fê-la por serUm raio a fecundá-la, não por lívidaAusência sem pecado e fê-la terEm si princípio e fim: ter entre auroraE meio-dia um homem e sua hora. FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora. E outros poemas. São Paulo: Cia das Letras, 2009. p.61.
[Continue lendo]Tudoserá difícil de dizer:a palavra realnunca é suave. Tudo será duro:luz impiedosaexcessiva vivênciaconsciência demais do ser. Tudo serácapaz de ferir. Será.agressivamente real.Tão real que nos despedaça. Não há piedade nos signose nem no amor: o seré excessivamente lúcidoe a palavra é densa e nos fere. [Orides Fontela, Toda palavra é crueldade] FONTELA, Orides. Poesia Reunida [1969-1996]. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006 Se a filosofia nunca soube ao certo o que é o ser (a metafísica ocidental só fez ocultá-lo ainda mais), em Heidegger ele ressurge iluminado pela linguagem poética. A poesia é ...
[Continue lendo]Manhã de um sábado de carnaval, num sobrado antigo, não muito longe da Igreja do Monte, em Olinda. Um passante esfarrapado anuncia no meio da rua: – Quem quer comprar vassoura de piaçava para deixar a casa bem limpinha depois da folia? Dona Filósofa vai até a janela do sobrado: – O Sr. não teria, por acaso, uma vassoura voadora? Preciso de uma para completar a minha fantasia de Platônica Perplexa! – Quer dizer que a senhora quer alçar vôo até as transcendências? Mas em que plano pretende chegar – ao das entidades matemáticas, ao das Formas ideais, ou ...
[Continue lendo]“Duas forças reinam no universo: luz e gravidade.”Simone Weil WEIL, Simone. A Gravidade e a Graça. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
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