A noite densa e escura foi cortada ao meio, separada em dois blocos negros de sono. Onde estava? Entre os dois pedaços, vendo-os – o que já dormira e o que ainda iria dormir-, isolada no sem-tempo e no sem-espaço, num intervalo vazio. Este trecho seria descontado de seus anos de vida. LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p.132.
[Continue lendo]“Qual é a cor do meu semblante?”(Arthur Bispo do Rosário) “Ceci est la couleur de mes rêves.”Esta é a cor de meus sonhos.(Miró) “Esta é a cor do meu revés.”(‘falsificação livre’ de Miró, por Angelo Marzano) In: CAIAFA, Janice. Qual é a cor do meu revés? In: BURROWES, Patrícia. O universo segundo Arthur Bispo do Rosário. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1996. p.9.
[Continue lendo]“Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty num tom bastante desdenhoso, “ela significa exatamente o que quero que signifique: nem mais nem menos. ” “A questão é”, disse Alice, “se pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.” “A questão”, disse Humpty Dumpty, “é saber quem vai mandar -só isto.” Alice estava perturbada demais para dizer o que quer que fosse, de modo que, após um minuto, Humpty Dumpty recomeçou. “Sào temperamentais, algumas… em particular os verbos, são os mais orgulhosos… com os adjetivos pode-se fazer qualquer coisa, mas não com os verbos… contudo, sei manobrar o bando todo! Impenetrabilidade! É ...
[Continue lendo]Queridos, apresento a vocês excertos de uma carta de Cecília Meireles na qual ela fala sobre o suicídio do primeiro marido: o pintor português Fernando Correia Dias. Não se trata, como bem coloca Arnaldo Saraiva, que tem a posse desta e de outras cartas de Cecília, de uma carta qualquer, trata-se, “mais do que de uma carta, de um texto de qualidade excepcional, humana e artística, e de um testemunho raro sobre a tragédia do suicídio do seu marido.” Cecília Meireles teve a vida marcada por perdas: perdeu seu pai três meses antes de seu nascimento, sua mãe aos três anos de idade e ...
[Continue lendo]O que muda na mudança se tudo em volta é uma dança no trajeto da esperança,junto ao que nunca se alcança? ANDRADE, Carlos Drummond de. Corpo. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
[Continue lendo]Queridos, tenho recebido mensagens carinhosas de leitores de Valentina perguntando-me pelo paradeiro da elefantinha. Valentina vai bem de saúde e não tem parado em lugar algum, segue enfrentando as questões de sua existência com valentia. Valentina tem me contado muitos contos para que eu conte a vocês o que a contêm e eu os continuo contando. Mas decidi publicar os contos todos juntos, no primeiro e-book da nossa revista. Em breve. Valentina manda um abraço e eu também! dana paulinelli
[Continue lendo]Sempre me tem preocupado, naquelas horas ocasionais de desprendimento em que tomamos consciência de nós mesmos como indivíduos que somos para os outros, a imaginação da figura que farei fisicamente, e até moralmente, para aqueles que me contemplam e me falam, ou todos os dias ou por acaso. Estamos todos habituados a considerar-nos como primordialmente realidade mentais, e aos outros como directamente realidades físicas; vagamente nos consideramos como gente física, para efeitos nos olhos dos outros; vagamente consideramos os outros como realidades mentais, mas só no amor ou no conflito tomamos verdadeira consciência de que os outros têm sobretudo alma, ...
[Continue lendo]Ser famoso não é bonitoNão nos torna mais criativos.São dispensáveis os arquivos.Um manuscrito é só um escrito. O fim da arte é doar somente.Não são os louros nem as loas.Constrange a nós, pobres pessoas,Estar na boca de toda a gente. Cumpre viver sem impostura.Viver até os últimos passos.Aprender a amar os espaçosE a ouvir o som da voz futura. Convém deixar brancos à beiraNão do papel, mas do destino,E nesses vãos deixar inscritosCapítulos da vida inteira. Apagar-se no anonimato,Ocultando nossa passagemPela vida, como à paisagemOculta a nuvem com recato. PASTERNAK, Boris. Contra a Fama. In: CAMPOS, Augusto de (org.) Poesia da recusa. ...
[Continue lendo]Hoje acabou-se-me a palavra, e nenhuma lágrima vem. Ai, se a vida se me acabara também! A profusão do mundo, imensa, tem tudo, tudo _ e nada tem. Onde repousar a cabeça?No além? Fala-se com os homens, com os santos consigo, com Deus… E ninguém entende o que se está contando e a quem… Mas terra e sol, luas e estrelas giram de tal maneira bem que a alma desanima de queixas. Amém. MEIRELES, Cecília. Viagem & Vaga Música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.181-18.
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