A coluna Poetas na Rede tem o prazer de apresentar Nina Rizzi.
Nina tem 27 anos, vive atualmente em Fortaleza/CE, é escritora, historiadora e militante do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Tem textos e poemas publicados em antologias, nas revistas VacaTussa e La Papa Ruchada (Argentina), e em várias páginas da internet, entre elas, a revista Germina, Garganta da Serpente e Balaio Porreta. Faz parte de Dedo de moça —uma antologia das escritoras suicidas, edita o blog Ellenismos e escreve no Putas Resolutas e no Escritoras Suicidas.
Nina é uma explosão de vida e escrita, ou vida na escrita, ou escrita na vida. Sabe lá! A meNina brinca. Conjuga erotismo e consciência social, Universidade e diversidade, juventude e maternidade, teoria e prática com um sorriso de quem chama para pensar, para imaginar ou para amar. Sabe lá! A meNina brinca.
Enfim, aproveitando a singularidade de Nina, que tem uma personalidade e uma escrita fascinantes, desenvolvemos juntas este post em formato diferente: uma entrevista ilustrada com alguns de seus poemas. Quem quiser participar da brincadeira, nadinha ingênua, é só entrar na roda.
Abraço a todos,
dana paulinelli
Entrevista ilustrada com Nina Rizzi
outra variação, outra
em te sonhar fiquei tão santa
que agora pra me comer
só de joelhos.
Nina: Ainda não havia pensado que minha poesia seja erótica, ou mesmo qualquer outro conceito. Quando vou escrever, geralmente, é por uma ânsia, uma necessidade de expressão de conflitos, desejos, angústias, alegrias, etc., não tenho tabuísmos de linguagem, então a poesia flui naturalmente. Assim, talvez toda a poesia seja erótica, porque ela vai se desnudando, se revelando, do mesmo modo que os sonhos; como os apaixonados se entregam...
ninadí riçy
eu já fui uma índia.
falava com o fogo, os rios, plantas, ventanias,
coisas da terra e da boca do céu;
dançava e me banhava nuinha co'a maloca toda.
mas bom mesmo,
era comer homem branco.
dana: Ainda no tocante ao caráter erótico dos seus poemas, percebe-se que você se utiliza como personagem dos mesmos. Como você lida com esta auto-exposição e com a repercussão desta exposição na internet?
Nina: Às vezes aparecem uns malucos que acham que a poesia é um “chamamento” ao sexo, fazem propostas indecentes. A sexualidade é uma esfera de nossa vida tão importante quanto às outras, é uma necessidade primária de nós animais. No processo civilizatório acabamos por nos silenciar, nos castrar, como se o sexo fosse uma coisa suja e que deve se esconder nas alcovas. E mesmo depois de muita luta, sobretudo dos movimentos feministas, o machismo ainda está arraigado em nossa sociedade. Ao me expor com poemas “eróticos” em primeira pessoa, talvez esteja contribuindo de algum modo para que as pessoas também se revelem, percebam a “normalidade”, a poesia que há em seus desejos mais íntimos.
diálogo
olha que bonitinhos os dois, cheios de sonhos pequeno-
burgueses. vão se casar.
estão apaixonados?
não, querem acumular capital.
dana: Além de escritora, você é historiadora e militante do MST, e esta consciência e militância social também são muito evidentes nos seus escritos. São duas mulheres em uma: a poeta erótica e a militante social, ou são duas faces de uma mesma mulher? Como você relaciona estas duas esferas de interesse na sua escrita?
Nina: São duas faces dentre muitas de uma mesma mulher. Somos seres múltiplos e adaptáveis às situações diversas. Quanto à militância, desde muito cedo me percebi como sujeito histórico no mundo, uma agente transformadora e não receptáculo; não poderia me imaginar de outro modo, morgando em frente à TV, por exemplo, enquanto o mundo gira lá fora, é preciso interagir, é preciso lutar, do mesmo modo que é preciso amar. E as artes em geral cumprem também essa função social e de modo muito mais efetivo, porque nos toca e conscientiza através da sensibilidade, do lúdico.
ces't lavi-nia
- vai trabalhar, mamaí!
- quê isso, menina?
- ah, eu fui lá geladeira e não tinha nada,
até a água secou da garrafa
ces't la vi-nia
- ô, mamaí, que engraçado:
toda hola você fica de noite
Nina: A gravidez foi um dos momentos mais mágicos da minha vida. É espantoso: do prazer, de um líquido, se formarem ossos e órgãos dentro da gente! Ficar mais sensível e modificar o olhar. Como é poética a maternidade! E a infância é poética. As crianças dizem e fazem cada coisa. Se assombram, riem, pulam, gritam e esperneiam pelo que querem, não foram formatados, então não se reprimem, é a poesia em seu estado bruto. Mas tudo é poético, as nuvens formando imagens, brincando com nossos sentidos; as auroras e crepúsculos que a cada segundo se modificam formando paisagens únicas. A poeira que se acumula sobre a mobília; os ciscos, a ventania e os insetos; o lixo que fica na minha esquina nos feriados e até a aridez do meu sertão... Nascer, viver e morrer é poético.
artaudniana
(para amor camarada)
vou colar rascunhos dadaístas, antropófagos,
para compor ritmos com o corpo.
me embriagar da palavra, morder o poema a seco,
a cru, em longas talagadas de afogamento,
morte instantânea, bela e breve.
urrar pelos cantos dentro um gozo literário
e fazer um museu de tudo.
que é só poesia que posso
te ter inteiro.
dana. Quais são as suas principais influências na poesia e na prosa? Quais as apropriações que você percebe fazer delas?
Nina: Assim como todos meus escritos são, mesmo quando pretensiosamente pura ficção, autobiográficos, pois que senão vivi, abstrai de algum modo, imaginei, sonhei, vi ou li; tudo é metaplágio, mesmo que não saibamos. Noutro dia me chegou um livro de poesias de um cearense que não conhecia e que também não me conhece e lá estava um poema idêntico ao meu! Somos diversos, sentimos de um modo peculiar, mas somos também semelhantes nos sentires e fazeres. Como diz Borges “me orgulho mais do eu li que do que escrevi”. Leio muito a poesia e a prosa clássica: Homero, Hesíodo, Virgílio, Aretino; textos quinhentistas. Mas gosto demais dos modernos também, sem os rigores formais e estilísticos. Tenho como santos da poesia Manuel Bandeira, Manuel de Barros, Murilo Mendes, Mallarmè, Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, Apollinaire, Neruda, Allen Ginsberg, Maiakóvski. Ultimamente tenho buscado conhecer mais poetas regionais como R. Ramos (Côtoco), Leonardo Motta, quase desconhecidos do grande público. Gosto ainda da poesia asiática, árabe e soviética. A internet também tem revelado grandes poetas como o Assis Freitas, Líria Porto e outros que não se revelaram na rede, mas foi através dela que conheci, como Nei Leandro de Castro, Chico Doido de Caicó, Romério Rômulo, etc... Já na prosa, o meu preferido é Dostoiévski, além dos clássicos Balzac, Cervantes, Shakespeare, da Bíblia com sua bela poética, etc., gosto da literatura “suja” e descompromissada, como Bulowski, Anaïs Nin, Virgínia Woolf, etc. Os latinos Júlio Cortázar, Mario Vargas Llosa, Adolfo Bioy Casáres, Jorge Luis Borges... Dentre os nacionais, Guimarães Rosa, Raduan Nassar, Jorge Amado, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Ana Miranda... Putz, eu poderia ficar citando sem parar e a cada segundo lembraria outros... Mas eu também leio embalagens, frascos, bulas...
_________ Imagens: ilustrações de Conrad Roset.








17 comentarios:
Acompanho à distância o trabalho de Nina. Fico sempre pelos cantos, observando: é artista grande!
Adorei esta entrevista, entremeada de versos, que me trouxe a certeza daquilo que eu suspeitava(usando gíria de filho...): A Nina não é fraca...
Parabéns ( repartidos ao meio, certinho...)para Nina e para Dana, corda e caçamba.
Um abraço
Ah, Zélia, pois eu também tenho acompanhado seus comentários gentis aqui na revista e seu belo trabalho no Ad litteram, e eu digo o mesmo: "você não é fraca, não, querida!"
Muito obrigada pela participação suave e atenciosa aqui no Imaginário. Um prazer tê-la conosco.
Abraço!
Excelente matéria!!!!!
abraços.
Nina é uma artista genial, maravilhosa, fortíssima e....!!!
Adorei a entrevista,as imagens.
Parabéns, Dana/Nina
abs
dana, querida,
obrigada pela entrevista, foi um prazer participar com vc deste jogo, ainda mais sendo aqui, imaginário rico em poética.
um beijo :)
Nina,
você é o espetáculo! : )
Grande abraço,
doce de lira
Nina, como poeta, historiadora, ativista, mulher e mãe de Lavinia, sempre me encantou e a cada leitura me surpreende. Tenho grande admiração e aplaudo a liberdade que só ela tem, para conceber e receber esses conceitos.
Parabéns, Dana pela entrevista!
Beijos Me-Nina!
Mirse
gostei muito da sua entrevista, nina nin
beijos
nina, você é dez, você é demais. me orgulha ter te conhecido e poder te visitar em outras páginas.
bjão pra ti.
Eu que agradeço, meNina!
O imginário é sua casa.
Beijo grande!
NINA É UMA DAS PESSOAS MAIS BONITAS QUE EU CONHECI.AINDA FAÇO UMA CAPA PARA ELA. BEIJO NINA..ALEX
Essa é a Nina...Excelente entrevista. Parabéns ao entrevistador e à entrevistada. Valeu!!!
ninadi
quem sai aos meus não degenera! risos
tenho o maior orgulho de ti, bambina - e agradeço a dana paulinelli pela bela entrevista - nina merece!
besos
mamadi
A Nina é avassaladora, suas palavras têm poderes incontidos e insuspeitados. E ela se multiplica em todas as suas mil faces, e numa única ficção: o seu próprio real. Abraços.
apaixonei, desde que pousei as meninas de meus olhos nas letras da meNINA "sorRizzi".
encantada!
Sim, Nina fantástica!
Acompanho o trabalho dela de longe também, e me encanto, me sensibilizo e me excito (por que não?) com seuas palavras.
Realmente sempre achei que ele era duas em uma, ou uma que é duas rsrsrs
Nina, um cumprimento de um grande fã.
Parábens, também a Dana, pela ótima entrevista!
Nina é maninha, mainha, mandinga...Adorei a entrevista...
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