“Deixa os livros de lado. Não te deixes mais distrair, isso já não te é permitido”, já escrevia o imperador Marco Aurélio. Essa frase é enigmática. Um filósofo deveria abandonar os livros? De que a leitura deles pode desviá-lo? Que tem ele a fazer de melhor, de mais urgente, de mais vital, do que ir de obra em obra, meditando e anotando? Não venham dizer que isso foi há mais de mil e oitocentos anos e que um imperador romano, mesmo se filósofo, quando está à beira do Danúbio, no meio das legiões, metido numa interminável campanha militar, tem mais ...
[Continue lendo]O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso. (Álvaro de Campos) óóóó – óóóóóóóóó – óóóóóóóóóóóóóóó (O vento lá fora) PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. São Paulo: Cia das Letras, 2007. p.526.
[Continue lendo]Não há nada que dure mais do que um sapato velhoJogado fora.Fica sempre carcomido.Ressecado, embodocado,Saliente por cima dos monturos.Quanto tempo!Que de chuva, que de sol,Que de esforço, constante, invisível,Material, atuante,Silencioso, dia e noite,Precisará um calçado, no lixo,Para se decompor absolutamente,Se desintegrar quimicamenteEm transformações de humo criador? CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São Paulo: Círculo do Livro, p. 67.
[Continue lendo]E como vai a vida que não é eterna?Houve a claridade Houve o enigmaE então foi feito Houve o enigma. Houve a claridadeSer veio a ser istoHouve o enigma houve a claridadeE então fez-se a terra no centro da mesa Quem senão será a força dos fracos? DEGUY, Michel. A rosa das línguas. Tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2004, p.67.
[Continue lendo]Tanto sol, preso ao chão como se nascesse dele. O mar, a barriga do mar, calada, arquejante. Os peixes em domingo, volteando rapidamente as caudas e serenos continuando a abrir caminho. Um navio parado. Domingo. Os marinheiros passeando pelo cais, pela praça. Um vestido cor-de-rosa aparecendo e desaparecendo numa esquina. As árvores cristalizadas em domingo, -domingo é qualquer coisa como árvores de Natal- brilhando silenciosas, contendo, assim, assim, a respiração. Um homem passando com uma mulher de vestido novo. O homem quer não ser nada, anda ao lado dela olhando-a quase de frente, indagando, indagando: diga, mande, pise. Ela não ...
[Continue lendo]DEZFACES é um coletivo de poesia de Belo Horizonte, formado atualmente por Adriana Versiani, Camilo Lara e Carlos Augusto Novais. O coletivo tem uma história fascinante que vocês podem conhecer mais profundamente, com alguns de seus versos, integrantes e publicações, no ensaio assinado por Márcio Almeida, publicado aqui no imaginário por ocasião do lançamento da coluna. O conteúdo desta coluna é editado por Adriana Versiani e as imagens são editadas por dana paulinelli. O poema de Adriana foi editado sobre uma gravura de Peter Nevins. As demais imagens foram obtidas sem referência de autoria e foram editadas para apresentação nesta coluna.
[Continue lendo]Carta a senhorita Ekaterina Fiodorovna Iunge* Petersburgo, 11 de abril de 1880. Permita-me que lhe ofereça um conselho que vem direto de meu coração: dedique-se à sua arte com mais empenho ainda do que até hoje pode dar. Sei, por ter ouvido de terceiros (não tome isso como algo ruim de minha parte) que a senhorita não é feliz. Viver sozinha e remoer continuamente as feridas de seu coração, residindo em meio às suas memórias, pode transformar sua vida algo difícil demais para suportar. Há apenas uma cura possível, um refúgio: a arte, a atividade criativa. DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Correspondência 1838-1880. ...
[Continue lendo]“Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.”Manoel de Barros BARROS, Manoel de. O Livro das Ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 2007. p.15.
[Continue lendo]“Felizes os que sofrem com unidade! Aqueles a quem a angústia altera mas não divide, que crêem, ainda que na descrença, e podem sentar-se ao sol sem pensamento reservado. [Fernando Pessoa] PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p.250.
[Continue lendo]