ESTRAGON Enquanto esperamos, vamos tratar de conversar com calma, já que calados não conseguimos ficar. VLADIMIR É verdade, somos inesgotáveis. ESTRAGON Para não pensar. VLADIMIR Temos nossas desculpas. ESTRAGON Para não ouvir. VLADIMIR Temos nossas razões. ESTRAGON Todas as vozes mortas. VLADIMIR Um rumor de asas. ESTRAGON De folhas. VLADIMIR De areia. ESTRAGON De folhas. Silêncio. VLADIMIR Falam todas ao mesmo tempo. ESTRAGON Cada uma consigo própria. Silêncio. VLADIMIR Melhor, cochicham. ESTRAGON Murmuram. VLADIMIR Sussurram. ESTRAGON Murmuram. Silêncio. VLADIMIR E falam do quê? ESTRAGON Da vida que viveram. VLADIMIR Não foi o bastante terem vivido. ESTRAGON Precisam falar. VLADIMIR Não ...
[Continue lendo]“Há os imbecis que definem meu trabalho como abstrato; no entanto, o que eles chamam de abstrato é o que é mais realista. O que é real não é a aparência, mas a idéia, a essência das coisas.” “Não procure por fórmulas obscuras ou mistério em meu trabalho. É pura alegria que eu vos ofereço. Olhe as minhas esculturas até enxergá-las. Aqueles mais perto de Deus têm-nas enxergado.” Constantin Brâncuşi (Hobitza, Romênia, 19 de fevereiro de 1876 — Paris, 16 de março de 1957), escultor romeno. Brancusi e “a preocupação de um escultor com o começo do mundo e com ...
[Continue lendo]Joaquim: O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas ...
[Continue lendo]Fernando Rey Puente O objetivo deste texto é o de discutir alguns conceitos de Simone Weil, filósofa judia-francesa que viveu de 1909 a 1943, acerca do problema do sofrimento humano, especialmente em sua relação com a herança grega e vetero-testamentária. Antes de tudo, gostaria de advertir aos meus leitores que não esperem da parte de nossa autora minudentes análises filológicas relativas aos textos gregos ou hebraicos em questão, nem muito menos exegeses tradicionais e bem comportadas, mas sim uma originalíssima reflexão pessoal de Simone Weil sobre os enigmas do sofrimento e da dor ancorada em sua leitura atenta desses textos, mas principalmente em sua própria vida, pois ...
[Continue lendo]“Aprenda a repelir a amizade, ou melhor, o sonho da amizade. Desejar a amizade é um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que oferece a arte, ou a vida. É preciso recusá-la para ser digno de recebê-la: ela é da ordem da graça (“Meu Deus, afastai-vos de mim…”). É dessas coisas que são dadas por acréscimo. Todo sonho de amizade merece ser quebrado. Não é por acaso que você nunca foi amado… Desejar escapar à solidão é uma covardia. A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela se exerce (é uma ...
[Continue lendo]A aparência adere ao ser e somente a dor pode arrancá-los um do outro. Quem tem o ser não pode ter a aparência. A aparência acorrenta o ser. O curso do tempo arranca o parecer do ser e o ser do parecer, por violência. O tempo manifesta que não é a eternidade. É preciso desenraizar-se. Cortar a árvore e fazer dela uma cruz, e em seguida carregá-la todos os dias. É preciso não ser eu, e menos ainda ser nós. A cidade dá sentimento de estar em casa. Ter o sentimento de estar em casa no exílio. Estar enraizado na ...
[Continue lendo]A atenção absolutamente sem mistura é prece. (…) Maneira errada de buscar. Atenção ligada a um problema. Mais um fenômeno de horror ao vazio. Não queremos ter perdido o esforço. Obstinação na caça. Não se deve querer encontrar: como no caso de uma devoção excessiva, tornamo-nos dependentes do objeto de esforço. Temos necessidade de uma recompensa exterior que às vezes o acaso fornece e que estamos dispostos a receber ao preço de uma deformação da verdade. (…) O poeta produz o belo pela atenção fixada sobre o real. Assim também o ato de amor. Saber que esse homem, que tem ...
[Continue lendo]A imaginação ocupa-se continuamente em tapar todas as fissuras por onde passaria a graça.Todo vazio (não aceito) produz ódio, irritação, amargura, rancor. O mal que desejamos àquilo que odiamos, e que imaginamos, restabelece o equilíbrio.(…)A imaginação preenchedora de vazios é essencialmente mentirosa. Exclui e terceira dimensão, pois somente os objetos reais estão nas três dimensões. Ela exclui as relações múltiplas.Tentar definir as coisas que, embora produzindo-se efetivamente, continuam sendo num certo sentido imaginárias. Guerra. Crimes. Vinganças. Infelicidade extrema.(…) Numa situação qualquer, se detemos a imaginação preenchedora, há vazio (pobres de espírito).Numa situação qualquer (mas, em algumas, ao preço de que rebaixamento!), ...
[Continue lendo]“A graça preenche, mas ela só pode entrar onde há um vazio para recebê-la, e é ela que produz esse vazio. Necessidade de uma recompensa, de receber o equivalente do que se dá. Contudo, se fazendo violência a essa necessidade deixa-se um vazio, produz-se como que um apelo de ar, e uma recompensa sobrenatural sobrevém. Ela não vem se temos um outro salário: esse vazio a faz vir. O mesmo vale para o perdão das dívidas (o que não concerne apenas ao mal que os outros nos fizeram, mas ao bem que lhes fizemos). Também aí aceitamos um vazio em ...
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