Mas, para um sonhador de coisas, haverá “naturezas mortas”? As coisas que foram humanas podem ser indiferentes? As coisas que foram nomeadas não revivem no devaneio do seu nome? Tudo depende da sensibilidade sonhadora do sonhador. Chesterton escreve: “As coisas mortas têm tal poder de apoderar-se do espírito vivo que eu me pergunto se é possível a alguém ler o catálogo de um leilão sem cair sobre coisas que, bruscamente apreendidas, fariam correr lágrimas elementares.” Só o devaneio pode despertar essa sensibilidade. Dispersas nos leilões, oferecidas a qualquer comprador, as coisas, as doces coisas, reencontrarão cada qual o seu sonhador? ...
[Continue lendo](Le grand vent qu’il fait, qui crie dans la cheminée, me souffle des insanités.)_ Quelle acquisition, la mémoire!… (O grande vento que faz, que assobia na lareira, me sopra insanidades.)_Que aquisição a memória!… VALÉRY, Paul. Poésie perdue. VI, 255 [1916], Paris: Gallimard, 2000, p.118. Tradução de Paulo Neves. In: NOVAES, Adauto (org.). Poetas que pensaram o mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2005. p.368.
[Continue lendo]O homem afinal alcançatriste, plana, úmida areia,olha em torno pensativo e,prudente, só assente, nada espera. Eu também procuro assim olharem torno suavemente, sem engano.Argento sussurro de foicebrinca entre as folhas dum álamo. No galho do nada pousa meu coração,seu pequeno corpo mudo treme.Estrelas se chegam e o cercamassistindo, assistindo mansamente. REMÉNYTELENÜL (1933) Az ember végül homokosSzomorú, vizes síkra ér,Szétnéz merengve és okosFejével biccent, nem remél. Én is így probálok csalásNékul szétnézni könnyedén.Ezüstös fejszesuhanásJátzik a nyárfa levelén. A semmi ágán ül szivem,Kis teste hangtalan vacog,Köréje gyűlnek szelidenS nézik, nézik a csillagok. Poema magiar de Attila József traduzido pelo amigo Chico Moreira Guedes ...
[Continue lendo]Obra publicada pela primeira vez em 1947 por Gemor Press, como um livro de gravuras de edição limitada, feitas no Ateliê Stanley William Hayter 17, Nova York, com uma introdução de Marius Bewley (assistente de Peggy Guggenheim). Figura 1 Era uma vez uma garota que amava um homem. Eles tiveram um encontro próximo à estação da oitava rua do metrô da sexta avenida. Ela havia vestido suas melhores roupas, ele não pôde ir. Assim, o propósito desta imagem é mostrar como ela estava bonita. Quero dizer que ela estava realmente linda. Figura 2 A morte solitária do edifício Woolworth. ...
[Continue lendo]Senhor Reitor: Na estreita cisterna que chamais “Pensamento” os raios do espírito apodrecem como montes de palha. Basta de jogos de palavras, de artifícios de sintaxe, de malabarismos formais; precisamos encontrar – agora – a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma Lei, uma prisão, senão um guia para o espírito perdido em seu próprio labirinto. Além daquilo que a ciência jamais poderá alcançar, ali onde os raios da razão se quebram contra as nuvens, esse labirinto existe, núcleo para o qual convergem todas as forças do ser, as últimas nervuras do Espírito. Nesse dédalo de muralhas ...
[Continue lendo]- … Porque, uma vez que você começou – perorava-, não há nenhuma razão para parar. O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo. (…) É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: “Ah, que bonito, tinha era que tirar uma foto!”, e já está no terreno de quem pensa que tudo o que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido, e que então para viver de verdade é preciso ...
[Continue lendo]“Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.” Manoel de Barros BARROS, Manoel de. Livro sobre Nada. Rio de Janeiro, São Paulo: Editora Record, 1996, p.69. Imagem: cabeça de Buddha (iluminado, desperto) entrelaçada nas raízes de uma árvore Bodhi (iluminação, despertar), um tipo de figueira que, segundo os textos sagrados do Budismo, teria sido a árvore em que Siddhartha Gautama meditava quando atingiu a iluminação e onde teve seu primeiro exemplo de conceito budista: o caminho do meio, ao aceitar comer após longo jejum. A árvore da imagem acima encontra-se na Tailândia.
[Continue lendo]Carta de Nietzsche à sua irmã Elizabeth. Nice, primavera de 1884: “This is the one side: of all acquaintances that I have made, that with Mlle. Salome is the most valuable and rewarding to me. Only after my encounter with her, I was ready for my Zarathustra. I had to cut this encounter short because of you. Forgive me if I feel this harder than you can empathize with it.–Lou is the most talented, most reflecting creature one can imagine–of course, she also has questionable qualities. I, too, have such qualities. However, the beauty of questionable qualities is that ...
[Continue lendo]Meus caros,o imaginário tem a alegria e a honra de anunciar a nova coluna Notas dispersas, assinada por Tatiana Faia. Tatiana Faia é licenciada em Estudos Clássicos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e prepara actualmente a sua dissertação de Doutoramento em Literatura Grega. É responsável, em conjunto com André Simões e J.P. Moreira, pela edição da Revista Ítaca: Cadernos de Ideias, Textos & Imagens, mantém o blog Lavorare Stanca e é colaboradora do blog Origem da Comédia. Foi nestes blogs maravilhosos que eu conheci seus textos e, plagiando Ferlinghetti, que Tatiana magistralmente nos apresenta logo abaixo: I Have Risked Enchantment. ...
[Continue lendo]