Uma lembrança pode ser pornográfica? Seria preciso que uma pornografia pudesse não ser pública, sem testemunha, visto que uma lembrança não se escreve, não se mostra, não se diz. sem gente que espia. Não sou necrófilo, não desejo teu cadáver. não sei o que é. se é. vi-te morta. não te vi cadáver. Porém eu desejo. Essas lembranças são as mais sombrias de todas. Violentam o mais possível o princípio de realidade. Mergulho, em pleno dia, nesses ardores. Mexes, respiras. Mas o silêncio é absoluto. ROUBAUD, Jacques. algo : preto. Tradução de Inês Oseki-Depré. São Paulo: Perspectiva, 2005. p.115.
[Continue lendo]“Queria ser admirado pelos pássaros.”Manoel de Barros BARROS, Manoel de. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2007. p.51.
[Continue lendo]“Para chegar a este momento, que é o de inclinar-se sobre o vazio, no balcão da viagem, do fim de semana, na proa do domingo, do crepúsculo, solto, afetuoso, perene e cortês, foi preciso a história, os pós-guerras, as heranças, a velocidade, os papéis, e eis, enfim, a contratempo, a ociosidade, o vazio, a inclinação zen, o além-fadiga – é preciso partir de novo.” DEGUY, Michel. A rosa das línguas. Tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2004, p.231.
[Continue lendo]“I think we ought to read only the kind of books that wound and stab us. If the book we are reading doesn’t wake us up with a blow on the head, why are we reading it for? . . . [W]e need the books that affect us like a disaster, that grieve us deeply, like the death of someone we loved more than ourselves, like being banished into forests far from everyone, like a suicide. A book must be the axe for the frozen sea inside us.” [Carta de Franz Kafka a Oskar Pollak, 27 de janeiro de 1904.] ...
[Continue lendo]- Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.- Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.- Vou te escrever carta e não mandar.- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.- Vou ver Saturno e me lembrar de você.- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.- O tempo não existe.- O tempo existe sim, e devora.- Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, ...
[Continue lendo]Conheci as obras da artista australiana Margarita Georgiadis há pouco tempo e me encantei particularmente com seus retratos borrados da série The Dust Weavers (2009). Quando vi, pensei: meu Deus, essa mulher pinta como quem tem catarata. E então me lembrei que certa vez, há muitos anos, em um asilo, eu atendi uma negra linda, centenária. Tento me lembrar de seu nome, não me lembro, infelizmente. Lembro-me apenas que ela tinha aqueles olhos de catarata, que velho que é velho tem, aquela nuvem nostálgica que médico diz que é doença e que eu acho que é medo de enxergar. Para ...
[Continue lendo]“A fidelidade! (…) Há nela a paixão da propriedade.Abandonaríamos muitas coisas, se não tivéssemos o receio de que outros as recolhessem.” WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Tradução de João do Rio. São Paulo: Hedra, 2006.
[Continue lendo]Venho, Senhora D, a pedido da vila, a confissão, a comunhão, não quer? meu nome é de onde vem o Mal, senhor? misterium iniquitatis, Senhora D, há milênios lutamos com a resposta, coexistem bons e maus, o corpo do Mal é separado do divino. quem criou o corpo do Mal? Senhora D, o Mal não foi criado, fez-se, arde como ferro em brasa, e quando quer esfria, é gelo, neve, tem muitas máscaras, por sinal, não gostaria de se desfazer das suas, e trazer a paz de volta à vizinhança? e como é o corpo do Mal? de escuridão e ...
[Continue lendo]Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,a que não se recusa a esse final convite,em máquinas de adeus, sem tentação de volta. Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:já de horizontes libertada, mas sozinha. Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga. Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadasvão as medidas que separam os abraços.Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina: “Agora és livre, se ainda recordas.” MEIRELES, Cecília. Solombra. ...
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