Bachelard > Poética do devaneio

Marcel Broodthaers, Maldição de Magritte, 1966, 78 x 62 x 32 cm.

Mas, para um sonhador de coisas, haverá “naturezas mortas”? As coisas que foram humanas podem ser indiferentes? As coisas que foram nomeadas não revivem no devaneio do seu nome? Tudo depende da sensibilidade sonhadora do sonhador. Chesterton escreve: “As coisas mortas têm tal poder de apoderar-se do espírito vivo que eu me pergunto se é possível a alguém ler o catálogo de um leilão sem cair sobre coisas que, bruscamente apreendidas, fariam correr lágrimas elementares.”

Só o devaneio pode despertar essa sensibilidade. Dispersas nos leilões, oferecidas a qualquer comprador, as coisas, as doces coisas, reencontrarão cada qual o seu sonhador? Um bom escritor da Champagne, Grosley, diz que sua avó, quando não sabia responder às suas perguntas de criança, dizia:

Deixe estar, quando você crescer, verá que existem muitas coisas num coisário.

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p.159-160.



Um Comentário

  1. thereza cupper escreveu:

    Sensível.
    Tenho uma cristaleira comprada em brechó e, que apesar do tempo (1995) e da mão de tinta, não perdeu o cheiro dela. Enchia-a de “coisas” que gosto. Então minhas lembranças se misturam as outras lembranças que ela deve ter contido. Alguma coisa ficou.
    Parabéns pela revista.

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