Barthes > O Rumor da Língua

 

 

“Em a República, texto escrito no século 4 a.C., Platão botou os poetas para fora de seu ideal de estado, por considerá-los preocupados demais com a forma e pouco com o conteúdo. De lá para cá, escritores se perguntam e são questionados para que (e a quem) serve aquele monte de palavras impressas num livro.

“Houve um tempo em que, nas palavras de Shelley, os escritores eram os legisladores anônimos do mundo, e a arte, o contraponto do poder, capaz de expandir o universo”.
Hoje é difícil dar esse status a meros artesãos de palavras. Difícil, mas nem por isso menos necessário.”
(Carlos Haag)
HAAG, Carlos. Beleza e Consequência. In: Revista Bravo, julho, 2005, ano 8.

 

 

 

O RUMOR DA LÍNGUA

A morte do autor
“Na novela Sarrasine, falando de um castrado disfarçado em mulher, Balzac escreve esta frase: “Era a mulher, com seus medos repentinos, seus caprichos sem razão, suas perturbações instintivas, suas audácias sem causa, suas bravatas e sua deliciosa finura de sentimentos”. Quem fala assim? É o herói da novela, interessado em ignorar o castrado que se esconde sob a mulher? É o indivíduo Balzac, dotado, por sua experiência pessoal, de uma filosofia da mulher? É o autor Balzac, professando idéias “literárias” sobre a mulher? É a sabedoria universal? A psicologia romântica? Jamais será possível saber, pela simples razão que a escritura é a destruição de toda voz, de toda origem. A escritura é esse neutro, esse composto, esse oblíquo aonde foge o nosso sujeito, o branco-e-preto aonde vem se perder toda identidade, a começar pela do corpo que escreve.
Sem dúvida sempre foi assim: desde que um fato é contado, para fins intransitivos, e não para agir diretamente sobre o real, isto é, finalmente, fora de qualquer função que não seja o exercício do símbolo, produz-se esse desligamento, a voz perde a sua origem, o autor entra na sua própria morte, a escritura começa. Entretanto, o sentimento desse fenômeno tem sido variável; nas sociedades etnográficas, a narrativa nunca é assumida por uma pessoa, mas por um mediador, xamã ou recitante, de quem, a rigor, se pode admirar a performance (isto é, o domínio do código narrativo), mas nunca o “gênio”. O autor é uma personagem moderna, produzida sem dúvida por nossa sociedade na medida em que, ao sair da Idade Média, com o empirismo inglês, o racionalismo francês e a fé pessoal da Reforma, ela descobriu o prestígio do indivíduo ou, como se diz mais nobremente, da “pessoa humana”. Então é lógico que, em matéria de literatura, seja o positivismo, resumo e ponto de chegada da ideologia capitalista, que tenha concedido a maior importância à “pessoa” do autor.

O autor reina ainda nos manuais de história literária, nas biografias de escritores, nas entrevistas dos periódicos, e na própria consciência dos literatos, ciosos por juntar, graças ao seu diário íntimo, a pessoa e a obra; a imagem da literatura que se pode encontrar na cultura corrente está tiranicamente centralizada no autor, sua pessoa, sua história, seus gostos, suas paixões; a crítica consiste ainda, o mais das vezes, em dizer que a obra de Baudelaire é o fracasso do homem Baudelaire, a de Van Gogh é a loucura, a de Tchaikovsky é o seu vício: a explicação da obra é sempre buscada do lado de quem a produziu, como se, através da alegoria mais ou menos transparente da ficção, fosse sempre afinal à voz de uma só e mesma pessoa, o autor, a entregar a sua “confidência”.

Sabemos agora que um texto não é feito de uma linha de palavras a produzir um sentido único, de certa maneira teológico (que seria a “mensagem” do Autor-Deus), mas um espaço de dimensões múltiplas, onde se casam e se contestam escrituras variadas, das quais nenhuma é original: o texto é um tecido de citações, saídas dos mil focos da cultura.”

 

(Barthes)
BARTHES, Roland. O Rumor da língua – editora -Brasiliense 1988.

http://www.eca.usp.br/jorlingrad/barthes.doc



9 Comentários

  1. Antônio Zumpano escreveu:

    >Brilhante escolha de texto Sueli! Se você apresentar textos de Derrida nesta coluna, nós leitores ficaremos muito agradecidos.Sugiro apenas que modifique a primeira frase do texto do Carlos Haag: o verbo "botar" não é nadinha bonito, completamente desapropriado para o assunto tratado pelo autor.Quem sabe o Álisson da Hora mude o seu perfil depois de ler o texto de Barthes!Parabéns Sueli.Zumpano

  2. Alisson da Hora escreveu:

    >Zumpanoobviamente que você não parece perceber algo primário nos meus textos "autorais" e nas minhas respostas que é algo chamado "ironia". Eu, como autor nunca pretendi me fazer valer de alguma voz que ultrapassasse quaisquer realidades. Tampouco alterar a ordem das coisas. Como humanista fajuto que sou ainda defenda, ironicamente, esta voz que dormita nos compêndios literários (e eu nem isso tenho, quem é que conhece Álisson da Hora?), é justamente para livrá-la da sanha estruturalista que defende tão somente a imanência do texto.Eu tenho quase toda a coleção do Barthes, inclusive a edição que a Sueli usou para retirar tal trecho. Eu não acredito na morte do autor porque eu, como um, já sei que o que eu escrevo, a partir do momento que vem à tona, já não me pertence mais. Os autores que hoje em dia necessitam tanto de encontros literários, baladas literárias, são como zumbis que vão contra o sábio conselho dado por Clarice na clássica entrevista dada a Jaime Lerner. "O escritor brasileiro devia falar o menos possível". Mas, como você me explicaria a contradição que é o texto se estruturar sem alguém que o coordene, que o articule? Então o texto é tão autônomo assim?Foge do império da subjetividade, da história? Assim como creio que um texto se perca, se torne independente após sua construção, creio principalmente que há um regente na ordem das palavras, que faz do seu ato de escrever um ato de doação, de generosidade compartilhada pelo leitor… Obviamente que não vou explicar Os cantos de Maldoror pela loucura de Lautreamont, As Flores do Mal, pelos porres do Baudelaire, ou as aleluias clariceanas pela sua cultura judaica enraizada em seu sangue. Mas, negar a eles a qualidades de regentes do texto, é no mínimo, um ato criminoso.

  3. sueli aduan escreveu:

    >Gosto muito desse texto e está em meus planos o Derrida, que a meu ver é fundamental na literatura, quanto à modificação da frase, penso que não, uma vez que estou citando um autor. Mas concordo com você, talvez não seja uma colocação adequada, digo: talvez, tentando compreender o tom de leveza e ironia que Haag quis dar a um assunto tão complexo.Obrigada Antônio Zumpano.

  4. dana paulinelli escreveu:

    >Sueli querida, já te disse e repito: brilhante abertura da tua coluna! Não conhecia o Barthes e fiquei encantada com a tese.Zumpano, meu caro,bom que vc gostou da coluna nova. Vc é muito bem vindo no IP, mas as provocações ficam p/o Dossiê Cassandra, entendido? Da próxima vez que vc citar nomes não publico teu comentário. Não acredito mesmo em democracia, não me custa nada ser ditadora ;)Alisson, gostei da defesa! De alguma forma foi útil p/vc pensar a tua própria práxis, né?Abraço a todos.dp

  5. >Aêeeee!Estava ansiosa por essa coluna e ela estreou de mão cheia. Já estudei alguns textos do Roland Barthes e é sempre válido considerar as ideias dele.Adorei! Já aguardando a próxima coluna e vou procurar a obra do Balzac em que li aquele trecho no iniciozinho. Abraço,Nanda Lym

  6. sueli aduan escreveu:

    >Nanda Lym,Eu também estava ansiosíssima! Ótimo que gostou e ter despertado "esse sentimento da busca" me deixa extremamente feliz.

  7. César Miranda escreveu:

    >Sueli, parabéns pelo texto. Não conhecia esse livro do Barthes. Anotado, quero ler.

  8. sueli aduan escreveu:

    >Cesar Miranda, muito obrigada. Esse livro não é mesmo muito conhecido, mas é execlente. Leia sim.

  9. Debora Proença escreveu:

    A questão que envolve autor e sua obra é discutida por leigos e estudiosos do assunto. Teria a ver com sua vida, sua história, mesmo quando não é autobiográfica? Somos representações da nossa própria história e o tempo todo contamos a nós mesmos, para os outros e para nós. Imagine, dentro de um ofício, um profissional preparado. Somos todos em si mesmos, uma outra história. Barthes é o mestre!

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