Carlos Pena Filho > Soneto do desmantelo azul

Marc Chagall, The Blue Violinist, 1947, óleo sobre tela.
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
COUTINHO, Ediberto. Os melhores poemas de Carlos Pena Filho. 4a ed. São Paulo: Ed. Global, 2000.



>Que lindo isto! A vertigem do azul, em todos os seus tons e nuances… Lindo. Abraços!
>Cada um tem lá suas vertigens mono ou multi coloridas, não é mesmo, Nydia?Obrigada pela visita.Abraço.
>Pena que o Carlos Pena Filho tenha morrido num acidente de carro. Ele ia buscar o Jânio Quadros (de quem era correligionário) no aeroporto do Recife quando aconteceu o acidente. Morrer por conta daquele cara não foi nada poético.
>Que maravilha de poema, um soneto azul e a minha cor preferida, bonito, um destes dias publico também.Abraço
>Pois é, José, conheci os poemas do Carlos Pena há pouco e tb fiquei encantada!Abraço.