“O homem também toma a si mesmo como matéria e se constrói, sim, senhores, como uma casa. Vocês acreditam que podem conhecer a si mesmos sem se construírem de algum modo? E que eu possa conhecê-los sem construí-los um pouco a me modo? E vocês a mim, sem me construírem a seu modo? Podemos conhecer apenas aquilo a que conseguimos dar forma. Mas que conhecimento é esse? Talvez esta forma seja a coisa mesma? Sim, tanto para mim quanto para vocês; mas não a mesma para mim e para vocês. Tanto isso é verdade que eu não me reconheço na ...
[Continue lendo]“Felizes os que sofrem com unidade! Aqueles a quem a angústia altera mas não divide, que crêem, ainda que na descrença, e podem sentar-se ao sol sem pensamento reservado. [Fernando Pessoa] PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p.250.
[Continue lendo]Provavelmente porque o ser se intranquiliza de já não ser o que ia sendo; intensamente, porque as fogueiras de um martírio impenitente são seus triunfos, seus troféus cheios de cinza; e finalmente porque tudo o que agoniza quer promulgar, solenizar o impermanente, o coração, naquele fundo ambivalente da coisa humana, momentâneo como a brisa, mas persuadido de que as músicas da mente hão de reter do ser mais do que uma soma, o coração vive das sombras de um aroma. Só muito raramente esse iludido sente a força de acordar antes que a luz cadente o deixe louco como à ...
[Continue lendo]O real é oco, coxo, capenga.O real chapa.A imaginação voa. Escrevi até a exaustãono pergaminho d’água do sono.Nessas linhas esvaídas no vórtice da vigília,ao mesmo tempo em que inebriado ouviacom o mais apurado ouvido absoluto,parece que eu transcreviacom a exata minúcia de geômetra-matemático,em uma vívida e mutável clave,as notas do sempre mesmo rouxinol.Sumida a cor dos perfumes das rosasde Hafiz de Chiraz sem deixar pista de armazém, aparelho clandestino, ponta de estoque, local de resgate, arquivo ou fichário do fantasmático país do olvido dessa amalgamada região dos tropos, acordei (oh! calígrafo dopado!) e nada restou ...
[Continue lendo]Tudo quanto de desagradável nos sucede na vida _ figuras ridículas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qualquer das virtudes _ deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só tem que supor a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós. Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós ...
[Continue lendo]Pai morto, namorada morta.Tia morta, irmão nascido morto.Primos mortos, amigo morto.Avô morto, mãe morta(mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos). Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto. Noiva morta, amigas mortas.Chefe de trem morto, passageiro morto.Irreconhecível corpo morto: será homem? bicho?Cão morto, passarinho morto.Roseira morta, laranjeiras mortas.Ar morto, enseada morta.Esperança, paciência, olhos, sono, mover de mão: mortos. Homem morto: Luzes acesas.Trabalha à noite, como se fora vivo. Bom dia! Está mais forte (como se fora vivo). Morto sem notícia, morto secreto.Sabe imitar fome, e como finge amor. E como insiste em andar, e como anda bem.Podia ...
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