“Fico imaginando que há no futebol valores transcendentes, que nós, simples curiosos, não captamos, mas que o bom torcedor vai intuindo com a argúcia apurada em uma longa educação da vista. Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até o seu mistério. Entretanto, a criança menos informada o possui.” ANDRADE, Carlos Drummond de. O Mistério da Bola. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Fala Amendoeira. Rio de Janeiro: Record, 1957.
[Continue lendo]I Os inventariantes pedirão conta dos cílios Apedrejados. Das madeiras inertes e dos cabelos Perdidos e dos egoísmos. Das penas das aves Das chuvas inúteis. Dos furacões e dos ventos II Dos espaços perdidos. Das lágrimas secas Dos carvões em brasa e das fogueiras de São João. Das violetas sob a terra nos cemitérios Das cores das môças morenas. III Das gotas d’água afundadas nas pedras. Dos laranjais Sem laranja e das malvadezas. Das águas constantes e Da lepra. Quem responderá? Os inventariantes quererão saber Dos feios e dos pequenos funcionários que estão sempre IV Nas filas, filas de caixões ...
[Continue lendo]“Candido Portinari nasceu no dia 30 de dezembro de 1903, numa fazenda de café em Brodoswki, no Estado de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, de origem humilde, recebeu apenas a instrução primária e desde criança manifestou sua vocação artística. Aos quinze anos de idade foi para o Rio de Janeiro em busca de um aprendizado mais sistemático em pintura, matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes. (…) Vai para Paris, onde permanece durante todo o ano de 1930. Longe de sua pátria, saudoso de sua gente, Portinari decide, ao voltar para o Brasil em 1931, retratar nas suas telas ...
[Continue lendo]Vim da terra vermelha e do cafezal. As almas penadas, os brejos e as matas virgens Acompanham-me como o espantalho, Que é o meu auto-retrato. Todas as coisas frágeis e pobres Se parecem comigo. [Candido Portinari] FONTE: Projeto Portinari: Centenário Portinari 2003 |2004. “No dia 9 de fevereiro de 1962, três dias após a morte de Candido Portinari, o poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, publica o poema “A Mão”, do qual estes trechos selecionados encerram esta palestra e este texto: Entre o cafezal e o sonho o garoto pinta uma estrela dourada na parede da capela. […] A mão sabe ...
[Continue lendo]Foi assim: de manhãzinha eu passeava dentro do pomar de D. Mariquinha. Peguei um maracujá, uma romã, ia pegando uns araçás quando senti aquela água na cara, jogada por D. Mariquinha. Xinguei assim: ô velha fedida, avarenta. Ia enxugar a cara. Um vento bateu. Fiquei parado no vento. Olhei tudo querendo ser sempre menino, querendo sempre ter um maracujá, uma romã, a vontade de alguns araçás, e água na cara e vento. Grande que eu era de pé, e alguma coisa me estufou o peito, alguma coisa me encheu a boca e eu gritei. OOOOOOOOIAAAAAAAAI e outra vez bem comprido ...
[Continue lendo]Quando o português chegouDebaixo de uma bruta chuvaVestiu o índioQue pena!Fosse uma manhã de solO índio tinha despidoO português. ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. São Paulo: Globo, 2003. (Disponível parcialmente aqui.)
[Continue lendo]Pôr freio em cachorro e montar de espora. Pealar porco no quintal. Correr na chuva de prancha. Pelotear passarinhos e soprar no cu dos semimortos a fim de que ressuscitem. Fazer besouro nadar em querosene. Plantar goiabeira com máquina-corpo.* Cangar grilos. Fazer gato cabrestear. Regaçar lagarto assustado. Experimentar se cágado entorta chaira mesmo com o sesso. Dar banho de álcool em urubu e soltar com fogo pra ver incêndio no céu. Enfiar vento no cordão. Destarraxar o traseiro dos gafanhotos. Fazer retinir a luzerna dos vagalumes. Desemendar cachorro com água pelando. Passar taligrama no mato. Fazer barata dormir de costas. ...
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