“… <<Eu e a Aldeia>> tem origem em Blaise Cendrars, o companheiro mais importante de Chagall durante os anos parisienses. O sugestivo stacccato das imagens, esboçadas por Cendrars nos seus poemas e romances, a jovialidade anárquica dos seus neologismos, correspondem ao mundo das maravilhas associativas de Chagall, porventura ainda mais do que a perfeição intelectual dos seus colegas pintores. Foram literatos que confirmaram Chagall no seu percurso, que compartilharam a sua inclinação para a poesia e com ele buscaram nas coisas significados ocultos. <<Um gênio dividido como um pêssego>>, era assim que Cendrars chamava seu amigo. Chagall retribuiu com <<O ...
[Continue lendo]- Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.- Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.- Vou te escrever carta e não mandar.- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.- Vou ver Saturno e me lembrar de você.- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.- O tempo não existe.- O tempo existe sim, e devora.- Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, ...
[Continue lendo]Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom. Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à ...
[Continue lendo]Em Lesbos caçando, no bosque das Ninfas, um espetáculo vi, o mais belo de quantos vi: uma pintura de um quadro, uma história de amor. Belo também era o bosque, arborizado, florido, irrigado: uma fonte tudo alimentava, tanto as flores quanto as árvores. Mas a pintura era mais encantadora, mostrando uma arte ímpar, um entrecho de amor. Assim muitos, mesmo dentre os estrangeiros, pela fama ali vinham, como suplicantes das Ninfas, como espectadores do quadro. Mulheres havia, nele, que davam à luz e outra que enrolavam em cueiros, criancinhas abandonadas, gado que nutria, pastores que recolhiam, jovens que faziam juras, ...
[Continue lendo]Então, pintei de azul os meus sapatospor não poder de azul pintar as ruasdepois, vesti meus gestos insensatose colori as minhas mãos e as tuas. Para extinguir em nós o azul ausentee aprisionar no azul as coisas gratas,enfim, nós derramamos simplesmenteazul sobre os vestidos e as gravatas. E afogados em nós, nem nos lembramosque no excesso que havia em nosso espaçopudesse haver de azul também cansaço. E perdidos de azul nos contemplamose vimos que entre nós nascia um sulvertiginosamente azul. Azul. COUTINHO, Ediberto. Os melhores poemas de Carlos Pena Filho. 4a ed. São Paulo: Ed. Global, 2000.
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