Venho, Senhora D, a pedido da vila, a confissão, a comunhão, não quer? meu nome é de onde vem o Mal, senhor? misterium iniquitatis, Senhora D, há milênios lutamos com a resposta, coexistem bons e maus, o corpo do Mal é separado do divino. quem criou o corpo do Mal? Senhora D, o Mal não foi criado, fez-se, arde como ferro em brasa, e quando quer esfria, é gelo, neve, tem muitas máscaras, por sinal, não gostaria de se desfazer das suas, e trazer a paz de volta à vizinhança? e como é o corpo do Mal? de escuridão e ...
[Continue lendo]Tanto sol, preso ao chão como se nascesse dele. O mar, a barriga do mar, calada, arquejante. Os peixes em domingo, volteando rapidamente as caudas e serenos continuando a abrir caminho. Um navio parado. Domingo. Os marinheiros passeando pelo cais, pela praça. Um vestido cor-de-rosa aparecendo e desaparecendo numa esquina. As árvores cristalizadas em domingo, -domingo é qualquer coisa como árvores de Natal- brilhando silenciosas, contendo, assim, assim, a respiração. Um homem passando com uma mulher de vestido novo. O homem quer não ser nada, anda ao lado dela olhando-a quase de frente, indagando, indagando: diga, mande, pise. Ela não ...
[Continue lendo]Hoje acabou-se-me a palavra, e nenhuma lágrima vem. Ai, se a vida se me acabara também! A profusão do mundo, imensa, tem tudo, tudo _ e nada tem. Onde repousar a cabeça?No além? Fala-se com os homens, com os santos consigo, com Deus… E ninguém entende o que se está contando e a quem… Mas terra e sol, luas e estrelas giram de tal maneira bem que a alma desanima de queixas. Amém. MEIRELES, Cecília. Viagem & Vaga Música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.181-18.
[Continue lendo]“É no regresso de sua segunda viagem à Europa, em 1931, que Goeldi irá dedicar-se com mais decisão à gravura, a despeito da indiferença do meio. Nos anos seguintes construirá a parte mais importante de sua obra, aquela que lhe garante uma situação absolutamente incomparável, na história das artes gráficas no Brasil. Se a dúvida sobre o próprio valor desapareceu, sua visão dos seres e das coisas continua pessimista, e empresta, aos objetivos mais banais, o sentimento trágico de quem não tem ilusões. Começam a surgir então, em sua obra, temas que ficarão para sempre ligados ao nome do artista: ...
[Continue lendo]Só Deus sabe quantas vezes eu pensei no que será o ‘dia-a-dia de Goeldi’. Que me contou do clima, do mato verde, das andanças noturnas, do vaguear diurno, de excitantes verduras e frutas tropicais, etc. Mas, na pequena folha que mostra uma mesinha na beira-mar, o senhor realizou uma coisa até agora nunca vista – está vindo ‘aquilo’- a noite profunda – foi uma ‘vida realizada’. Última carta de Alfred Kubin a Oswaldo Goeldi 7 de janeiro de 1951 Gravura. Arte Brasileira do Século XX. São Paulo: Cosac Naify, Itaú Cultural, 2000. p.44.
[Continue lendo]Foi o caso que um homenzinho, recém-aparecido na cidade, veio à casa do Meu Amigo, por questão de vida e morte, pedir providências. Meu Amigo sendo de vasto saber e pensar, poeta, professor, ex-sargento de cavalaria e delegado de polícia. Por tudo, talvez, costumava afirmar: _ “A vida de um ser humano, é impossível. O que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio.” Na data e hora, estava-se em seu fundo de quintal, exercitando ao alvo, com carabinas e revólveres, revezadamente. Meu Amigo, a bom seguro que, no mundo, ninguém, jamais, atirou quanto ele tão bem -no agudo da pontaria ...
[Continue lendo]_É uma cidade igual a um sonho: tudo o que pode ser imaginado por ser sonhado, mas mesmo o mais inesperado dos sonhos é um quebra-cabeça que esconde um desejo, ou então o seu oposto, um medo. As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam um outra coisa._Eu não tenho desejos nem medos _declarou o Khan_, e meus sonhos são compostos pela mente ou pelo acaso._As cidades também acreditam ser obra ...
[Continue lendo]Não são mais silenciosos os espelhosNem mais furtiva a aurora aventureira;Tu és, sob a lua, essa pantera,Que divisam ao longe nossos olhos.Por obra indecifrável de um decretoDivino, buscamo-te inutilmente;Mais remoto que o Ganges e o poente,Tua é a solidão, teu o segredo.Teu dorso condescende à morosaCarícia de minha mão. Sem um ruído,Da eternidade que ora é olvido,Aceitaste o amor dessa mão receosa.Em outro tempo estás. Tu és o donoDe um espaço cerrado como um sonho. BORGES, Jorge Luis. Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2009. p.152.
[Continue lendo]Reconhecer a realidade como uma forma da ilusão, e a ilusão como uma forma da realidade, é igualmente necessário e igualmente inútil. A vida contemplativa, para sequer existir, tem que considerar os acidentes objectivos como premissas dispersas de uma conclusão inatingível; mas tem ao mesmo tempo que considerar as contingências do sonho como em certo modo dignas daquela atenção a elas, pela qual nos tornamos contemplativos. Qualquer coisa, conforme se considera, é um assombro ou um estorvo, um tudo ou um nada, um caminho ou uma preocupação. Considerá-la cada vez de um modo diferente é renová-la, multiplicá-la por si mesma. ...
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