“Cabe então indagar: é possível viver neste mundo sem auto-imagem?“Jiddu Krishnamurti In: KRISHNAMURTI, Jiddu. Ensinar e Aprender. Rio de Janeiro: ICK, 1980. p.49.
[Continue lendo]“- Que se pudesse partir ao meio toda coisa inteira – disse meu tio, de bruços no rochedo, acariciando aquelas metades convulsivas de polvo – que todos pudessem sair de sua obtusa e ignorante inteireza. Estava inteiro e para mim as coisas eram naturais e confusas, estúpidas como o ar: acreditava ver tudo e só havia a casca. Se você virar a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, há de entender coisas além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais ...
[Continue lendo]_ Há montanhas -prossegui- muito altas, imensas, cobertas de mosteiros. E nesses mosteiros vivem monges de hábitos amarelos. Ficam sentados, pernas cruzadas, um mês, dois meses, seis meses, e apenas pensam em uma única coisa. Uma só, entende? Não duas, uma! Não pensam, como nós, na mulher e na linhita, ou nos livros e na linhita: concentram seu espírito sobre uma única e mesma coisa, e realizam milagres. É assim que acontecem os milagres. Você viu, Zorba, que, ao expor uma lupa ao sol, você reúne todos os raios num mesmo ponto? Esse ponto logo pega fogo. Por quê? Porque ...
[Continue lendo]Ai, ai. Nuvens? Vento? E não lhes parece suficiente perceber e reconhecer que aquilo que veleja luminoso pela vacuidade infindável e azul são nuvens? Ela sabe por acaso que existe, a nuvem? Tampouco os abetos e as pedras sabem dela, os quais ignoram inclusive a si mesmos e estão sozinhos. Percebendo e reconhecendo a nuvem, vocês podem, meus caros, pensar até na história da água (e por que não?) que se torna nuvem para tornar-se de novo água. Sim, uma grande coisa. E um pobre professorzinho de física já bastaria para lhes explicar esse fenômeno. Mas quem explica o porquê ...
[Continue lendo]Se para os outros eu não era o que até agora havia pensado que era para mim, quem eu era? Vivendo, eu nunca havia pensado na forma do meu nariz; no tamanho, se grande ou pequeno; ou na cor dos meus olhos; na largura ou estreiteza da minha testa, e assim por diante. Aquele era o meu nariz, aqueles, os meus olhos, aquela, minha testa: coisas inseparáveis de mim, nas quais, entregue a meus afazeres, absorvido por meus pensamentos, abandonado a meus sentimentos, eu não podia pensar. Mas agora pensava: “E os outros? Os outros estão dentro de mim, Para ...
[Continue lendo]Precisamente alino intervalo entre a vontade e o desejoali na parede, o interruptorda lâmpada que lança sobre tudoa cal abrupta da realidade, capaz de avassalar a escuridãoarredondando os ângulos agudoscomo uma chave líquida que abrissetodas as portas. Porém vocênão precisa de portas. BRITTO, Paulo Henriques. Trovar claro: poemas. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 47.
[Continue lendo]Sempre me tem preocupado, naquelas horas ocasionais de desprendimento em que tomamos consciência de nós mesmos como indivíduos que somos para os outros, a imaginação da figura que farei fisicamente, e até moralmente, para aqueles que me contemplam e me falam, ou todos os dias ou por acaso. Estamos todos habituados a considerar-nos como primordialmente realidade mentais, e aos outros como directamente realidades físicas; vagamente nos consideramos como gente física, para efeitos nos olhos dos outros; vagamente consideramos os outros como realidades mentais, mas só no amor ou no conflito tomamos verdadeira consciência de que os outros têm sobretudo alma, ...
[Continue lendo]Só pisando subimos, Só derrotando vencemos, Só conformando o outro a nós o amor nos alcança, E tudo isso com sermos, seguramente sermos o outro Até que nada nos reste de escapatória ou abrigo. BUENO, Alexei. Poesia Reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003. p.310
[Continue lendo]O sol é um só. Por toda parte caminha.Não o darei a ninguém. Ele é coisa minha.Nem por um raio. nem por um olhar. Nem por um instante.A ninguém. Nunca.Que morram as cidades numa noite constante!Nos braços vou apertar, que não possa girar!Faço as mãos, os lábios, o coração queimar!Se desaparecer na noite infinita, no encalço hei de correr…Meu sol! A ninguém o darei! TSVETÁIEVA, Marina. Indícios flutuantes. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p.67.
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