“Para chegar a este momento, que é o de inclinar-se sobre o vazio, no balcão da viagem, do fim de semana, na proa do domingo, do crepúsculo, solto, afetuoso, perene e cortês, foi preciso a história, os pós-guerras, as heranças, a velocidade, os papéis, e eis, enfim, a contratempo, a ociosidade, o vazio, a inclinação zen, o além-fadiga – é preciso partir de novo.” DEGUY, Michel. A rosa das línguas. Tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2004, p.231.
[Continue lendo]Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino. Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas -agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de ...
[Continue lendo]Quando os relógios da meia-noite prodigaremUm tempo generoso,Irei mais longe que os vogas-avante de UlissesÀ região do sonho, inacessívelÀ memória humanaDessa região imersa resgato restosQue não consigo compreender:Ervas de singela botânica,Animais um pouco diferentes,Diálogos com os mortos,Rostos que na verdade são máscaras,Palavras de linguagens muito antigasE às vezes um horror incomparávelAo que nos pode conceder o dia.Serei todos ou ninguém. Serei o outroQue sem saber eu sou, o que fitouEsse outro sonho, minha vigília. E a julga,Resignado e sorridente. BORGES, Jorge Luis. Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2009, p.166.
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