Mas, para um sonhador de coisas, haverá “naturezas mortas”? As coisas que foram humanas podem ser indiferentes? As coisas que foram nomeadas não revivem no devaneio do seu nome? Tudo depende da sensibilidade sonhadora do sonhador. Chesterton escreve: “As coisas mortas têm tal poder de apoderar-se do espírito vivo que eu me pergunto se é possível a alguém ler o catálogo de um leilão sem cair sobre coisas que, bruscamente apreendidas, fariam correr lágrimas elementares.” Só o devaneio pode despertar essa sensibilidade. Dispersas nos leilões, oferecidas a qualquer comprador, as coisas, as doces coisas, reencontrarão cada qual o seu sonhador? ...
[Continue lendo]“A infância é certamente maior que a realidade. (…) É no plano do devaneio, e não no plano dos fatos, que a infância permanece em nós viva e poeticamente útil. Por essa infância permanente, preservamos a poesia do passado.” BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p.35. Imagem: The First Generation (2000), escultura em bronze de Chong Fah Cheong, está localizada na Ponte Cavenagh, em Singapura. A escultura foi criada como parte de uma série de esculturas de diversos escultores, no Open Air Interpretative Center projetado pela Singapore Tourism Board. A ...
[Continue lendo]“Na verdade, as paixões cozinham e recozinham na solidão. É encerrado em sua solidão que o ser de paixão prepara suas explosões ou seus feitos. E todos os espaços das nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são indeléveis em nós. E é precisamente o ser que não deseja apagá-los. (…) a lembrança das solidões estreitas, simples, comprimidas, são para nós experiências do espaço reconfortante, de um espaço que não deseja estender-se, mas gostaria sobretudo de ser possuído mais uma vez.” BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Tradução ...
[Continue lendo]“Um filósofo que formou todo o seu pensamento atendo-se aos temas fundamentais da filosofia das ciências, que seguiu o mais exatamente possível a linha do racionalismo ativo, a linha do racionalismo crescente da ciência contemporânea, deve esquecer o seu saber, romper com todos os hábitos de pesquisas filosóficas, se quiser estudar os problemas propostos pela imaginação poética. Aqui o passado cultural não conta; o longo trabalho de relacionar e construir pensamentos, trabalho de semanas e meses é ineficaz. É necessário estar presente, presente à imagem no minuto da imagem: se há uma filosofia da poesia, ela deve nascer e renascer ...
[Continue lendo]O espaço, fora de nós, ganha e traduz as coisas:Se quiseres conquistar a existência de árvore,Reveste-a de espaço interno, esse espaçoQue tem seu ser em ti. Cerca-o de coações.Ela não tem limite, e só se torna realmente uma árvoreQuando se ordena no seio da tua renúncia. RILKE. Poema de junho de 1924, traduzido para o francês por Claude Vigée, publicado na revista Le Lettres, 4o ano, no 14,15,16,p.13. In: BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antônio de Pádua Danese. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p.205.
[Continue lendo]Sou diretamente as molduras Que seguem diretamente o teto. Mas há ângulos de onde não se pode mais sair. ALBERT-BIROT, Pierre. Poèmes à l’autre moi. p.48. In: BACHELARD, G. A poética do espaço. Tradução de Antônio de Pádua Danese. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p.153.
[Continue lendo]E eis que me tornei um desenho de ornamento Volutas sentimentais Volta das espirais Superfície organizada em preto e branco E no entanto acabo de ouvir-me respirar É isso um desenho? Isso sou eu? ALBERT-BIROT, Pierre. Poèmes à l’autre moi. p.48. In: BACHELARD, G. A poética do espaço. Tradução de Antônio de Pádua Danese. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p.154.
[Continue lendo]Quando criança, vi pela primeira vez o gesso endurecer, tive um choque e entrei em meditação. Não conseguia afastar-me do espetáculo. Era então apenas um espetáculo, mas eu sentia obscuramente, pelo modo como fiquei com o espírito preso a ele até os rins, que lá havia algo, de que eu também teria de me servir um dia. MICHAUX, Henri. Liberté d’Action. In: BACHELARD, Gaston. A Terra e os Devaneios da Vontade. Ensaio sobre a imaginação das forças. Tradução de Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2008. p.165.
[Continue lendo]Procuro em cofres que me cercam brutalmentePondo trevas de pernas para o arEm caixas profundas, profundasComo se já não fossem deste mundo. SUPERVIELLE, Jules. Gravitationes. In: BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Matirns Fones, 1998. p.100.
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