Le chat et l’oiseau[Jacques Prévert] Un village écoute désoléLe chant d’un oiseau blesséC’est le seul oiseau du villageEt c’est le seul chat du villageQui l’a à moitié dévoréEt l’oiseau cesse de chanterLe chat cesse de ronronnerEt de se lécher le museauEt le village fait à l’oiseauDe merveilleuses funéraillesEt le chat qui est invitéMarche derrière le petit cercueil de pailleOù l’oiseau mort est allongéPorté par une petite filleQui n’arrête pas de pleurerSi j’avais su que cela te fasse tant de peineLui dit le chatJe l’aurais mangé tout entierEt puis je t’aurais racontéQue je l’avais vu s’envolerS’envoler jusqu’au bout du mondeLà-bas où ...
[Continue lendo]Eu amo meu marido. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre maldormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado. Depois, arrumo-lhe o nó da gravata e ele protesta por consertar-lhe unicamente a parte menor de sua vida. Rio para que ele saia mais tranqüilo, capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta ...
[Continue lendo]Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom. Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à ...
[Continue lendo]“Fico imaginando que há no futebol valores transcendentes, que nós, simples curiosos, não captamos, mas que o bom torcedor vai intuindo com a argúcia apurada em uma longa educação da vista. Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até o seu mistério. Entretanto, a criança menos informada o possui.” ANDRADE, Carlos Drummond de. O Mistério da Bola. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Fala Amendoeira. Rio de Janeiro: Record, 1957.
[Continue lendo]As mães que já o eram antes de ser instituído o Dia das Mães não se importam muito com ele, e até dispensam homenagens sob esse pretexto. Mas as que cumpriram a maternidade após a sua criação pensam de outro modo, e amam a data. Edwiges, mãe recente, com filho de ano e meio de idade, não tinha quem celebrasse o seu Dia, pois a criança estava longe de poder fazê-lo. Comprar para si mesma um presente não tinha graça, e além do mais não havia dinheiro para isso. Aderir à festa das outras mães, que tinham filhos grandes e ...
[Continue lendo]O que muda na mudança se tudo em volta é uma dança no trajeto da esperança,junto ao que nunca se alcança? ANDRADE, Carlos Drummond de. Corpo. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
[Continue lendo]Que metro servepara medir-nos?Que forma é nossae que conteúdo? Contemos algo?Somos contidos?Dão-nos um nome?Estamos vivos? A que aspiramos?Que possuímos?Que relembramos?Onde jazemos? (Nunca se findanem se criara.Mistério é o tempoinigualável.) ANDRADE, Carlos Drummond de. 100 Poemas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.p.222. Descrição da imagem: Christian Boltanski, The Storehouse, 1988, instalação. “Seven photographs with seven electric lamps and one hundred ninety-two tin biscuit boxes containing cloth fragments, overall 211.2 x 375.8 x 21.6 cm. Enlarged photographs of seven young girls are propped atop a stack of unlabeled tin biscuit boxes containing scraps of fabric. These boxes are corroded as if marked by ...
[Continue lendo]A minha casa pobre é rica de quimerae se vou sem destino a trovejar espantos,meu nome há de romper as mais nevoentas erastal qual Pentapolim, o rei dos Garamantas.Rola em minha cabeça o tropel de batalhasjamais vistas no chão ou no mar ou no inferno.Se da escura cozinha escapa o cheiro de alho,o que nele recolho é o olor da glória eterna.Donzelas a salvar, há milhares na Terrae eu parto em meu rocim, corisco, espada, grito,o torto endireitando, herói de seda e ferro,e não durmo, abrasado, e janto apenas nuvens,na férvida obsessão de que enfim a benditaIdade de Ouro e ...
[Continue lendo]Solange, a namorada. Todas as moças perdiam para Solange. Nenhuma podia competir com ela em matéria de namoro. Os rapazes da cidade só alimentavam uma aspiração: que Solange olhasse para eles. Desdenhavam todas as outras, ainda que fossem lindas, cheias de graça e boas de namorar. Namorar Solange, merecer o favor de seus olhos: que mais desejar na vida?A nenhum deles Solange namorava. Era uma torre, um silêncio, um abismo, uma nuvem. Sua família inquietava-se com isto e pedia-lhe que pelo amor de Deus escolhesse um rapaz e namorasse. O vigário exortou-a nesse sentido. O prefeito apelou para os seus ...
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