Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,a que não se recusa a esse final convite,em máquinas de adeus, sem tentação de volta. Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:já de horizontes libertada, mas sozinha. Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga. Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadasvão as medidas que separam os abraços.Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina: “Agora és livre, se ainda recordas.” MEIRELES, Cecília. Solombra. ...
[Continue lendo]IINão sejas o de hoje.Não suspires por ontens…Não queiras ser o de amanhã.Faze-te sem limites no tempo.Vê a tua vida em todas as origens.Em todas as existências.Em todas as mortes.E sabe que serás assim para sempre.Não queiras marcar a tua passagem.Ela prossegue:É a passagem que se continua.É a tua eternidade…É a eternidade.És tu. MEIRELES, Cecília. Cânticos. In: MEIRELES, Cecília. Poesia Completa. Vol. I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p.121-2.
[Continue lendo]Outro dia sonhei que o coche fúnebrevinha buscar-me e não achava-me preparada:não estava nem morta nem doente,e sentia que tinha de partir.Então, disse para o cocheiro:“Espere um pouquinho,que estou acabando de ler este livro.”E o cocheiro concordou e esperou.Deve estar esperando. MEIRELES, Cecília. Sonhos. In: MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Vol. II. Organização de Antonio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p.1293.
[Continue lendo]Queridos, apresento a vocês excertos de uma carta de Cecília Meireles na qual ela fala sobre o suicídio do primeiro marido: o pintor português Fernando Correia Dias. Não se trata, como bem coloca Arnaldo Saraiva, que tem a posse desta e de outras cartas de Cecília, de uma carta qualquer, trata-se, “mais do que de uma carta, de um texto de qualidade excepcional, humana e artística, e de um testemunho raro sobre a tragédia do suicídio do seu marido.” Cecília Meireles teve a vida marcada por perdas: perdeu seu pai três meses antes de seu nascimento, sua mãe aos três anos de idade e ...
[Continue lendo]Hoje acabou-se-me a palavra, e nenhuma lágrima vem. Ai, se a vida se me acabara também! A profusão do mundo, imensa, tem tudo, tudo _ e nada tem. Onde repousar a cabeça?No além? Fala-se com os homens, com os santos consigo, com Deus… E ninguém entende o que se está contando e a quem… Mas terra e sol, luas e estrelas giram de tal maneira bem que a alma desanima de queixas. Amém. MEIRELES, Cecília. Viagem & Vaga Música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.181-18.
[Continue lendo]O pensamento é triste; o amor, insuficiente;e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.Deixo que a terra me sustente:guardo o resto para mais tarde. Deus não fala comigo – e eu sei que me conhece.A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.A estrela sobe, a estrela desce…- espero a minha própria vinda. (Navego pela memóriasem margens. Alguém conta a minha históriaE alguém mata os personagens.) FERNANDA, Maria (org.). Melhores poemas de Cecília Meireles. São Paulo: Global Editora, 2002.
[Continue lendo]Como chegavas do casulo, – inacabada seda viva!- tuas antenas – fios soltos da trama de que eras tecida, e teus olhos, dois grãos da noite de onde o teu mistério surgia. Como caíste sobre o mundo inábil, na manhã tão clara, sem mãe, sem guia, sem conselho, e rolavas por uma escada como papel, penugem, poeira, com mais sonho e silêncio que asas. Minha mão tosca te agarrou com uma dura, inocente culpa, é é cinza de lua teu corpo, meus dedos, tua sepultura. Já desfeita e ainda palpitante, expiras sem noção nenhuma. – Ó bordado do véu do ...
[Continue lendo]Bem sei que, olhando pra minha cara,pra minha boca, triste e incoerente,pros gestos vagos de sombra incertaque hoje sou eu,minha loucura se faz tão clara,minha desgraça tão evidente,minha alma toda tão descoberta,que pensam: “Este, não bebeu…”Passei a noite, passei o diade cotovelos firmes na mesa,de olhos sobre o vinho perdidos,a testa pulsando na mão:e muros de melancoliasubiam pela sala acesa,inutilizando os gemidos,mas quebrando-me o coração.Deixei o copo no mesmo nível:bebida imóvel, espelho atento,onde -só eu- vi desabrochares,rosto amargo de amor!Vim da taverna ébrio de impossível,pisando sonhos, beijando o vento,falando às pedras, agarrando os ares…- Oh! deixem-me ir para onde eu ...
[Continue lendo]Acostumei minhas mãosa brincarem na água clara:por que ficarei contente?A onda passa docemente:seus desenhos – todos vãos.Nada pára. Acostumei minhas mãosa brincarem na água turva:e por que ficarei triste?Curva, e sombra, sombra e curva,cor e movimento – vãos.Nada existe. Gastei meus olhos mirando vidascom saudade.Minhas mãos por águas perdidasforam pura inutilidade. MEIRELES, Cecília. Poesia & vaga Música. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2006. p.136.
[Continue lendo]