A minha vida se resume,desconhecida e transitória,em contornar teu pensamento, sem levar dessa trajetórianem esse prêmio de perfumeque as flores concedem ao vento. MEIRELES, Cecília. Poesia & vaga música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.73.
[Continue lendo]Voz obstinada, por que insiste chamandopor um nome que não corresponde mais a mim?Não é do meu propósito que fiques ao longe sozinha.Nem tu sabes que espécie de saudade abrolha na noitee como o silêncio tenta mover-se inutilmente,quando diriges teus ímãs sonoros,sondando direções!Não é do meu propósito, ó voz obstinada,mas da minha condição.As aparências dispersaram-se de mim,como pássaros:que sol se pode fixar nesta existência,para te definir a minha aproximação?Minhas dimensões se aboliram nos limites visíveis:como podes saber onde me circunscrevo,e de que modo me pode o teu desejo atingir?Eu mesma deixei de entender a minha substância;tenho apenas o sentimento dos ...
[Continue lendo]É mais fácil pousar o ouvido nas nuvense sentir passar as estrelasdo que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceanoe assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,que desejar que apareças, criando com teu simples gestoo sinal de uma eterna esperança.Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,nem tu.Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar. MEIRELES, Cecília. Viagem & vaga música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p.25.
[Continue lendo]Meu avô me deu três barcos:um de rosas e cravos,um de céu estrelados,um de náufragos, náufragos… ai, de náufragos! Embarcara no primeiro,dera em altos rochedos,dera em mares de gelo,e partira-se ao meio… ai, no meio! No segundo me embarcara,e nem sombra de praia,e nem corpo e nem alma,e nem vida e nem nada… ai, nem nada! Embarcara no terceiro,e que vela e que remo!e que estrela e que vento!e que porto sereno! ai, sereno! Meu avô me deu três barcos:um de sonhos quebrados,um de sonhos amargos,e o de náufragos, náufragos! ai, de náufragos! MEIRELES, Cecília. Viagem & vaga música. Rio ...
[Continue lendo]Basta-me um pequeno gesto,feito de longe e de leve,para que venhas comigoe eu para sempre te leve… -mas só esse eu não farei. Uma palavra caídadas montanhas dos instantesdesmancha todos os marese une as terras mais distantes… _ palavra que não direi. Para que tu me adivinhes,entre os ventos taciturnos,apago meus pensamentos,ponho vestidos noturnos _ que amargamente inventei. E, enquanto não me descobres,os mundos vão navegandonos ares certos do tempo,até não se sabe quando… _ e um dia me acabarei. MEIRELES, Cecília. Viagem & vaga Música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.85-6.
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