Uma lembrança pode ser pornográfica? Seria preciso que uma pornografia pudesse não ser pública, sem testemunha, visto que uma lembrança não se escreve, não se mostra, não se diz. sem gente que espia. Não sou necrófilo, não desejo teu cadáver. não sei o que é. se é. vi-te morta. não te vi cadáver. Porém eu desejo. Essas lembranças são as mais sombrias de todas. Violentam o mais possível o princípio de realidade. Mergulho, em pleno dia, nesses ardores. Mexes, respiras. Mas o silêncio é absoluto. ROUBAUD, Jacques. algo : preto. Tradução de Inês Oseki-Depré. São Paulo: Perspectiva, 2005. p.115.
[Continue lendo]Há três suposições. a primeira, não é exagero colocar em ordem, é que acabou, não a nomearei.Uma segunda suposição é que nada poderia ser dito.Uma outra suposição enfim, é que doravante nada lhe será semelhante. esta suposição destitui tudo o que faz elo.De algumas dessas suposições deduzem-se, sem pertinência, proposições em cadeia.De que doravante nada será semelhante, concluir-se-á que só existe dessemelhança e daí, que não há nenhuma relação, que nenhuma relação é definível.Concluir-se-á à impropriedade.Tudo se suspende no ponto onde surge um dessemelhante. e daí algo, mas algo preto.Pela simples reiteração, não existe mais, os todos se desfazem em ...
[Continue lendo]Afasto-me pouco deste lugar como se a clausura num espaço mínimo te devolvesse da realidade, visto que aqui vivias comigo.Em sua descida, como em sua subida, o sol penetra, quando faz sol, e segue seu caminho reconhecível, nas paredes, nos assoalhos, nas cadeiras, curvando, reclinando as portas.Fico muito tempo aqui, seguindo-o com os olhos, interpondo minha mão, sem fazer nada, pensar, complemento de imobilidade.Não vives nesses cômodos, eu não poderia dizê-lo, não estou assombrado por ti, não tenho mais, agora, senão raramente a alucinação noturna de tua voz, não te surpreendo abrindo a porta, nem os olhos.O que me ocupa, ...
[Continue lendo]O sentido do passado nascede objetos-já.Em todos os momentos evidentesprocurei-teTambém em tênuesinterregnosProcurei quem?ondeestás?quem?quem, não tem mais sentidonem quê (sem nome, em nenhuma língua)Eu retornaria, alguns passos atrás, eu estarianum espaçodiferente, em certo sentido precário.Como se o som atravessando a águabaixasse de uma quarta.” ROUBAUD, Jacques. algo : preto. Tradução de Inês Oseki-Dépré. São Paulo: Perspectiva, 2005. p.38.
[Continue lendo]Eu queria desviar seu olhar para sempre. eu queria ser o único no mundo a não ter visto. essa mão podia não ter estado lá, afinal: nem eu tampouco, e comigo desaparecer o mundo. esse brinde. a imagem de tua morte.Ela amara a vida apaixonadamente de longe. sem a impressão de estar nela nem de fazer parte dela. infeliz, ela fotografava relvados tranquilos e felicidade familiar. êxtase paradisíaco, ela fotografava a morte e sua saudade.Enfim adequação exata da morte mesma à morte sonhada, a morte vivida, a morte mesma mesma. idêntica à ela mesma mesma.Puro precipício do amor.Adormecer como todo ...
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