Noites de longa insônia e de castigoQue ansiavam a alba e a temiam,Dias daquele ontem que repetiamOutro inútil ontem. Hoje os bendigo,Como pressentiria nestes anosDe solidão de amor, que as atrozesFábulas da febre e as ferozesAuroras não eram mais que degrausTorpes e errantes galeriasQue me conduziam à puraculminância de azul que no azul perduraDesta tarde de um dia e de meus dias? Elsa, em minha mão eu prendo a tua. VemosNo ar a neve e a queremos. No original: Noches de largo insomnio y de castigoque anhelaban el alba y la temían,días de aquel ayer que repetíanotro inútil ayer. Hoy ...
[Continue lendo]“... Não há umaCoisa que saiba que sua forma é rara.” “De que nada se sabe”. In: BORGES, Jorge Luis. Poesia. Tradução Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 183. Saint Clair Cemin nasceu em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, em 1951 e vive e trabalha em Paris, Nova Iorque e Pequim. Outras obras de sua autoria podem ser conhecidas em seu site > www.saintclaircemin.com Fernanda Carvalho
[Continue lendo]“As pessoas acreditaram na realidade do dragão. E em meados do século XVI, ele foi registrado da História Animalium, de Conrad Gesner, obra de caráter científico. O tempo desgastou consideravelmente o prestígio dos dragões. Acreditamos no leão como realidade e como símbolo; acreditamos no minotauro como símbolo, já que não acreditamos nele como realidade; o dragão talvez seja o mais conhecido, mas também o menos afortunado dos animais fantásticos. Parece-nos pueril e costuma contaminar de puerilidade as histórias em que está presente. Convém não esquecer, contudo, que se trata de um preconceito moderno, talvez provocado pelo excesso de dragões existentes ...
[Continue lendo]Quando menino, eu temia que o espelho Me mostrasse outro rosto ou uma cega Máscara impessoal que ocultaria Algo na certa atroz. Temi também Que o silencioso tempo do espelho Se desviasse do curso cotidiano Dos horários do homem e hospedasse Em seu vago extremo imaginário Seres e formas e matizes novos. (Não disse isso a ninguém, menino tímido.) Agora temo que o espelho encerre O verdadeiro rosto de minha alma, Lastimada de sombras e de culpas, O que Deus vê e talvez vejam os homens. BORGES, Jorge Luis. Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2009. p.282.
[Continue lendo]Com o passar dos anos me rodeiauma constante névoa refulgenteque aos poucos reduz todo o existentea algo informe e sem cor. Quase a uma idéia.A vasta noite elementar e o diacheio de gente são essa neblinade luz incerta e fiel que não declinae que espreita na aurora. Gostariade ver um rosto algum dia. Ignoroa inexplorada enciclopédia, o prazerde livros que minha mão sabe ler,as altas aves e as luas de ouro.Aos outros todos resta o universo;a minha penumbra, o hábito do verso. BORGES, Jorge Luis. Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2009, p.398.
[Continue lendo]Não são mais silenciosos os espelhosNem mais furtiva a aurora aventureira;Tu és, sob a lua, essa pantera,Que divisam ao longe nossos olhos.Por obra indecifrável de um decretoDivino, buscamo-te inutilmente;Mais remoto que o Ganges e o poente,Tua é a solidão, teu o segredo.Teu dorso condescende à morosaCarícia de minha mão. Sem um ruído,Da eternidade que ora é olvido,Aceitaste o amor dessa mão receosa.Em outro tempo estás. Tu és o donoDe um espaço cerrado como um sonho. BORGES, Jorge Luis. Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2009. p.152.
[Continue lendo]Os poentes e as várias gerações.Os dias e nenhum foi o primeiro.A frescura da água na gargantaDe Adão. O ordenado Paraíso.O olho tentando decifrar a treva.Os amores dos lobos na alvorada.A palavra. O hexâmetro. O espelho.A Torre de Babel e a soberba.A lua que miravam os caldeus.As areias inúmeras do Ganges.Chuang Tzu e a borboleta que o sonha.As douradas maçãs de certas ilhas.Os passos do errante labirinto.A tela infinita de Penélope.Dos estóicos o tempo circular.A moeda na boca de um morto.O peso da espada na balança.Cada gota de água na clepsidra.As águias, os fastos, as legiões.César na manhã clara da ...
[Continue lendo]Aí está o que foi: a dura espadaDo saxão e sua métrica de ferro,Os mares e as ilhas do desterroDo filho de Laertes, a douradaLua do persa e os infinitos jardins,Os da filosofia e os da história,O ouro sepulcral que há na memóriaE sob a sombra o cheiro dos jasmins.E nada disso importa. O resignadoExercício do verso não te salva,Nem as águas do sonho nem a estrelaQue na arruinada noite esquece a alva.Uma única mulher é teu cuidado,Igual às outras todas, mas que é ela. BORGES, Jorge Luis. Poesia. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cia das Letras, 2009. ...
[Continue lendo]Quando os relógios da meia-noite prodigaremUm tempo generoso,Irei mais longe que os vogas-avante de UlissesÀ região do sonho, inacessívelÀ memória humanaDessa região imersa resgato restosQue não consigo compreender:Ervas de singela botânica,Animais um pouco diferentes,Diálogos com os mortos,Rostos que na verdade são máscaras,Palavras de linguagens muito antigasE às vezes um horror incomparávelAo que nos pode conceder o dia.Serei todos ou ninguém. Serei o outroQue sem saber eu sou, o que fitouEsse outro sonho, minha vigília. E a julga,Resignado e sorridente. BORGES, Jorge Luis. Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2009, p.166.
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