... O cavalo relincha, o cachorro late, quase ninguém lhe oferece numa esquina um pedacinho solto de bicicleta ou pião, quase nunca é verão em pleno inverno por razões de lógica estritamente polida é preciso ser o que se é ou não ser nada, e nada vai tirar você do sério, ninguém vai tirar, e se um cavalo late nunca o saberemos, porque os cavalos não latem. ... In: CORTÁZAR, Julio. Último round. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. p.148-150.
[Continue lendo]“Aqui se fecharam olhos através dos quais o universo se contemplava com amor e em toda sua riqueza.”Epitáfio de Johann Jakob Wagner “Como os eleatas, como Santo Agostinho, Novalis pressentiu que o mundo de dentro é o caminho inevitável para se chegar verdadeiramente ao mundo externo e descobrir que os dois serão um só quando a alquimia dessa viagem produzir um homem novo, o grande reconciliado. Novalis morreu sem chegar à flor azul, Nerval e Rimbaud desceram em seu tempo até as Mães e nos condenaram à terrível liberdade de pretender-nos deuses a partir de tanto barro. Por todos eles, ...
[Continue lendo]Tinham construído a casa no limite da selva, orientada para o sul evitando assim que a umidade dos ventos de março se somasse ao calor que a sombra das árvores atenuava um pouco. Quando Winnie chegava Deixou o parágrafo no meio, empurrou a máquina de escrever e acendeu o cachimbo. Winnie. O problema, como sempre, era Winnie. Quando tratava dela a fluidez se coagulava numa espécie de Suspirando, apagou numa espécie de, porque detestava as facilidades do idioma, e pensou que não poderia continuar trabalhando até depois do jantar; as crianças logo iam chegar da escola e ele teria que ...
[Continue lendo]Eu as conheço, as horríveis, as tecedoras envoltas em penugemem cores que crescem das mãos, do fioaté o coágulo trêmulo movendo-se na rede de dedos ávidos.Filhas da sesta, lesmas pálidas escondidas do sol,nas bacias deixadas nos pátios crescem seu veneno e sua paciência,nas varandas ao anoitecer, nas calçadas dos bairros,nos espaço sujo de buzinas e lamentos do rádio,em cada vazio onde o tempo for um pulôver.Tecem estupidez, lágrimas e desmemória,tecem, dia e noite tecem a roupa de baixo,tecem a bolsa onde se afoga o coração,tecem sinos encarnados e luvas roxas para nossos joelhos.Tece, mulher verde, mulher úmida, tece, tece,Amontoa em ...
[Continue lendo]Cada memória apaixonada tem suas madalenas e a minha -saiba disso, onde quer que você estiver- é o perfume do tabaco claro que me devolve à tua noite espigada, à lufada da tua pele mais profunda. Não o tabaco que se aspira, a fumaça que reveste as gargantas, e sim aquela vaga equívoca fragrância que o cachimbo deixa nos dedos e que em algum momento, em algum gesto despercebido, sobe com seu látego de delícias para encabritar a lembrança que tenho de ti, a sombra das tuas costas contra o branco velame dos lençóis. Não me olhes aí da tua ...
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