Montanha e chão. Neve e lava.Humildade da umidade.Quem disse que eu não te amava?Amo-te mais que a verdade. E de resto o que é a verdade?E de resto o que é a poesia?E o que é, nesta guerra fria,Qualquer pura realidade? Então, tão-só no passadoQuero situar o meu sonho.Faço como tu e, mudadoEm ariesphinx, sotoponho O leão ao manso carneiro,Doçura de olhos de corça!Doçura, divina forçaDe Jesus, de Deus cordeiro. BANDEIRA, Manuel. Poemas religiosos e alguns libertinos. São Paulo: Cosac Naify, 2007. p.19.
[Continue lendo]O menino dorme.Para que o meninoDurma sossegado,Sentada a seu ladoA mãezinha canta: _ “Dodói, vai-te embora!“Deixa o meu filhinho.“Dorme, dorme…meu…” Morta de fadiga,Ela adormeceu. Então, no ombro dela,Um vulto de santa,Na mesma cantiga,Na mesma voz dela,Se debruça e canta: _ “Dorme, meu amor.“Dorme, meu benzinho…”E o MENINO dorme. BANDEIRA, Manuel. Poemas religiosos e alguns libertinos. 2a ed. rev. e ampl. São Paulo: Cosac Naify, 2007. p.41. Imagem: Pietá da pintora portuguesa Paula Rego, que dedicou um ciclo da sua pintura à Virgem Maria, no ano de 2002, para uma exposição no Museu Nacional da Rainha Sofia em Madrid. Esta é uma ...
[Continue lendo]Os cavalinhos correndo,E nós, cavalões, comendo…Tua beleza, Esmeralda,Acabou me enlouquecendo. Os cavalinhos correndo,E nós, cavalões, comendo…O sol tão claro lá fora,E em minh’alma – anoitecendo! Os cavalinhos correndo,E nós, cavalões, comendo…Alfonso Reyes partindo,E tanta gente ficando… Os cavalinhos correndo,E nós, cavalões, comendo…A Itália falando grosso,A Europa se avacalhando… Os cavalinhos correndo,E nós, cavalões, comendo…O Brasil politicando,Nossa! A poesia morrendo…O sol tão claro lá fora,O sol tão claro, Esmeralda,E em minh’alma – anoitecendo! BANDEIRA, Manuel. 50 poemas escolhidos pelo autor. São Paulo: Cosac Naify, 2006. p.44.
[Continue lendo]Eurico Alves, poeta baiano,Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant’Ana. Sou poeta da cidade.Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar[o gás carbônico das salas de cinema. Como o pão que o diabo amassou.Bebo leite de lata.Falo com A. que é ladrão. Aperto a mão de B. que é assassino.Há anos que não vejo o romper do sol, que não lavo os olhos nas cores[das madrugadas. Eurico Alves, poeta baiano,Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça. BANDEIRA, Manuel. 50 poemas escolhidos pelo ...
[Continue lendo]Estou farto do lirismo comedidoDo lirismo bem comportadoDo lirismo funcionário público com livro de ponto expediente[protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretorEstou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário[o cunho vernáculo de um vocábulo Abaixo os puristasTodas as palavras sobretudo os barbarismos universaisTodas as construções sobretudo as sintaxes de exceçãoTodos os ritmos sobretudo os inumeráveisEstou farto do lirismo namoradorPolíticoRaquíticoSifilíticoDe todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmoDe resto não é lirismoSerá contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar[com cem modelos de cartas[e as diferentes maneiras[de agradar às mulheres, etc.Quero antes ...
[Continue lendo]A primeira vez que vi TeresaAchei que ela tinha pernas estúpidasAchei também qua a cara parecia uma perna Quando vi Teresa de novoAchei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse) Da terceira vez não vi mais nadaOs céus se misturaram com a terraE o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas. BANDEIRA, Manuel. Estrela da manhã e outros poemas. Antologia Poética. São Paulo: Círculo do Livro, 1978. p.70.
[Continue lendo]Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.A vida inteira que podia ter sido e que não foi.Tosse, tosse, tosse.Mandou chamar o médico:— Diga trinta e três.— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .— Respire.……………………………………………— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. BANDEIRA, Manuel. Estrela da manhã e outros poemas. São Paulo: Círculo do Livro, 1978. p.60.
[Continue lendo]O vento varria as folhas,O vento varria os frutos,O vento varria as flores…E a minha vida ficavaCada vez mais cheiaDe frutos, de flores, de folhas. O vento varria as luzes,O vento varria as músicas,O vento varria os aromas…E a minha vida ficavaCada vez mais cheiaDe aromas, de estrelas, de cânticos. O vento varria os sonhosE varria as amizades…O vento varria as mulheres.E a minha vida ficavaCada vez mais cheiaDe afetos e de mulheres. O vento varria os mesesE varria os teus sorrisos…O vento varria tudo!E a minha vida ficavaCada vez mais cheiaDe tudo. BANDEIRA, Manuel. Estrela da manhã e outros ...
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