Fernando Rey Puente O objetivo deste texto é o de discutir alguns conceitos de Simone Weil, filósofa judia-francesa que viveu de 1909 a 1943, acerca do problema do sofrimento humano, especialmente em sua relação com a herança grega e vetero-testamentária. Antes de tudo, gostaria de advertir aos meus leitores que não esperem da parte de nossa autora minudentes análises filológicas relativas aos textos gregos ou hebraicos em questão, nem muito menos exegeses tradicionais e bem comportadas, mas sim uma originalíssima reflexão pessoal de Simone Weil sobre os enigmas do sofrimento e da dor ancorada em sua leitura atenta desses textos, mas principalmente em sua própria vida, pois ...
[Continue lendo]“Aprenda a repelir a amizade, ou melhor, o sonho da amizade. Desejar a amizade é um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que oferece a arte, ou a vida. É preciso recusá-la para ser digno de recebê-la: ela é da ordem da graça (“Meu Deus, afastai-vos de mim…”). É dessas coisas que são dadas por acréscimo. Todo sonho de amizade merece ser quebrado. Não é por acaso que você nunca foi amado… Desejar escapar à solidão é uma covardia. A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela se exerce (é uma ...
[Continue lendo]A aparência adere ao ser e somente a dor pode arrancá-los um do outro. Quem tem o ser não pode ter a aparência. A aparência acorrenta o ser. O curso do tempo arranca o parecer do ser e o ser do parecer, por violência. O tempo manifesta que não é a eternidade. É preciso desenraizar-se. Cortar a árvore e fazer dela uma cruz, e em seguida carregá-la todos os dias. É preciso não ser eu, e menos ainda ser nós. A cidade dá sentimento de estar em casa. Ter o sentimento de estar em casa no exílio. Estar enraizado na ...
[Continue lendo]A atenção absolutamente sem mistura é prece. (…) Maneira errada de buscar. Atenção ligada a um problema. Mais um fenômeno de horror ao vazio. Não queremos ter perdido o esforço. Obstinação na caça. Não se deve querer encontrar: como no caso de uma devoção excessiva, tornamo-nos dependentes do objeto de esforço. Temos necessidade de uma recompensa exterior que às vezes o acaso fornece e que estamos dispostos a receber ao preço de uma deformação da verdade. (…) O poeta produz o belo pela atenção fixada sobre o real. Assim também o ato de amor. Saber que esse homem, que tem ...
[Continue lendo]A imaginação ocupa-se continuamente em tapar todas as fissuras por onde passaria a graça.Todo vazio (não aceito) produz ódio, irritação, amargura, rancor. O mal que desejamos àquilo que odiamos, e que imaginamos, restabelece o equilíbrio.(…)A imaginação preenchedora de vazios é essencialmente mentirosa. Exclui e terceira dimensão, pois somente os objetos reais estão nas três dimensões. Ela exclui as relações múltiplas.Tentar definir as coisas que, embora produzindo-se efetivamente, continuam sendo num certo sentido imaginárias. Guerra. Crimes. Vinganças. Infelicidade extrema.(…) Numa situação qualquer, se detemos a imaginação preenchedora, há vazio (pobres de espírito).Numa situação qualquer (mas, em algumas, ao preço de que rebaixamento!), ...
[Continue lendo]“A graça preenche, mas ela só pode entrar onde há um vazio para recebê-la, e é ela que produz esse vazio. Necessidade de uma recompensa, de receber o equivalente do que se dá. Contudo, se fazendo violência a essa necessidade deixa-se um vazio, produz-se como que um apelo de ar, e uma recompensa sobrenatural sobrevém. Ela não vem se temos um outro salário: esse vazio a faz vir. O mesmo vale para o perdão das dívidas (o que não concerne apenas ao mal que os outros nos fizeram, mas ao bem que lhes fizemos). Também aí aceitamos um vazio em ...
[Continue lendo]Meus caros, esta semana, de segunda a sábado (20-25/09), o imaginário poético apresentará a Semana Simone Weil: cinco posts que expõem conceitos centrais do pensamento de Simone Weil, seguidos de um ensaio inédito do Prof. Fernando Rey Puente, renomado estudioso do pensamento desta brilhante filósofa do século XX. Neste post dedico-me apenas a apresentar os temas e as ilustrações escolhidas para expor uma fração mínima do pensamento dessa pensadora que me é tão cara. Os textos que serão apresentados foram todos retirados da obra A gravidade e a graça, que não é uma obra editada por Simone Weil, mas sim uma coletânea de pensamentos retirados de manuscritos ...
[Continue lendo]Dois Galos Cada vez que uma comunidade tenta, através da censura, do ostracismo ou da morte, silenciar um dissidente moral ou intelectual, amordaçá-lo ou de alguma forma impedir que faça suas perguntas intoleráveis, essa comunidade vive uma hora socrática. Porém, concomitantemente, o pensador, o cientista, o artista, o ironista ou satirista que insiste, in extremis, em suas dúvidas desconstrutivas, que permanece fiel ao que julga ser uma verdade maior que as crenças herdadas e as soluções de compromisso essenciais para a manutenção do status quo da cidade repete a provocação socrática. Conscientemente ou não, seja no campo secular (como Karl ...
[Continue lendo]Queridos, quem me acompanha aqui no Imaginário conhece minha paixão pelo pensamento de Simone Weil, filósofa de primeira grandeza. Já apresentei aqui seus poemas La Porte e Nécessité, seu Plano de Reenraizamento Operário, exposto na obra O Enraizamento, seu princípio de Luz e Gravidade e ainda o poema Amor de George Herbert, que Simone Weil aponta como determinante em sua conversão cristã. A influência do pensamento de Simone Weil sobre mim fica ainda mais evidente na coluna Flechas de Laocoon, especialmente no post Do Delicado Equilíbrio da Leitura, completamente fundamentado em seu conceito de leitura. Bem, é no contexto desta admiração que participo a vocês, com muita ...
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