O objecto conhecido por “paleta de Narmer”, dedicada ao templo do deus Hórus pelo rei Narmer, que reinou c. 3150 a.C., continua a suscitar significativas dificuldades de interpretação. A peça tem uma qualidade estética notável para uma obra de arte produzida há mais de cinco mil anos. A faixa superior do verso representa o rei Narmer em procissão, saindo do palácio singelamente representado por um rectângulo; diante da procissão estão dez corpos decepados, cada um deles com a cabeça entre as respectivas pernas; na leitura de alguns, as cabeças estão encimadas pelos pénis dos cadáveres, excepto uma delas; uma barca ...
[Continue lendo]“Ano 9, Xandikos, dia 4, que corresponde ao mês egípcio Mekhir, dia 18 [=27 de Março de 196 a.C.] o reino do jovem rei que ascendeu ao lugar de seu pai, o senhor da sagrada serpente uraeus cujo poder é grande, que protegeu o Egipto e o tornou próspero, cujo coração é piedoso perante os deuses, aquele que prevalece sobre o inimigo, que enriqueceu a vida do seu povo, senhor dos jubileus como Ptah-Tanen [deus de Mênfis], rei como Ré [o deus solar], senhor das Duas Terras, filho dos deuses que amam o seu pai, que Ptah escolheu e a quem o Sol deu a vitória, ...
[Continue lendo]“Somos amantes da beleza sem extravagâncias e amantes da filosofia sem indolência. Usamos a riqueza mais como uma oportunidade para agir que como um motivo de vanglória; entre nós não há vergonha na pobreza, mas a maior vergonha é não fazer o possível para evitá-la. Ver-se-á em uma mesma pessoa ao mesmo tempo o interesse em atividades privadas e públicas, e em outros entre nós que dão atenção principalmente aos negócios não se verá falta de discernimento em assuntos políticos, pois olhamos o homem alheio às actividades públicas não como alguém que cuida apenas de seus próprios interesses, mas como um inútil; nós, cidadãos atenienses, decidimos as questões ...
[Continue lendo]Inscrição na “taça de Nestor”: “De Nestor sou a taça aprazível de beberAquele que beber esta taça vazia imediatamenteUm desejo de Afrodite de bela coroa (o) tomará.” A inscrição, uma das mais antigas com caracteres gregos (de influência fenícia), data do séc. VIII a.C. Escrita da direita para a esquerda, à maneira hebraica, foi encontrada num objecto conhecido como a “taça de Nestor”, em Pitecusas (ilha de Ischia, frente a Nápoles). Foi já proposta a associação (não identitária) com a taça de Nestor mencionada na Ilíada (XI, 632-637), o que pode ter resultado de referência literária ou de mera recolecção ...
[Continue lendo]O posicionamento social em relação ao homoerotismo feminino tem hoje características curiosamente semelhantes a algumas opiniões correntes na Antiguidade Clássica, ainda que salvaguardadas as devidas diferenças. O caso de Platão (428-348 a.C) parece ser paradigmático de alguns dilemas bem actuais nesta matéria. No Banquete, Platão pela voz de Aristófanes diz o seguinte: “Cada um de nós não passa, pois, de uma téssera humana, divididos, como estamos, em metades, à semelhança dos linguados; e é a sua própria metade, ou téssera, que cada um infatigavelmente procura. Em consequência, todos os homens que resultam do corte de um ser misto (o mesmo ...
[Continue lendo]No Antigo Egipto, o acto mágico não era entendido como bruxaria de segunda linha, mas, pelo contrário, tinha o carácter de uma prática sagrada, já que continha a força criativa que existira no estabelecimento do universo. Mesmo a magia privada tinha um estatuto importantíssimo no quotidiano do homem egípcio, servindo quer para proteger da doença, quer para impedir que as privações o atingissem. Os rituais mágicos empreendidos eram diversos, comportando palavras e ingredientes criteriosamente seleccionados, sendo realizados em momento adequado e propício ao bom efeito desejado. Por exemplo, julgava-se que os rituais teriam mais efeito ao amanhecer, quando as forças ...
[Continue lendo]Estatueta de Gudea, ensi (“governador”) de Lagash, no Sul da Mesopotâmia. Viveu no séc. XXII a.C.. Terá sido um governador pacífico que concedeu às mulheres o direito de possuirem terras. Só por isso valeu a pena ser governador. É notável que o tenha feito há quarenta e dois séculos. Talvez pudesse inspirar uns hmadinejads que andam por aí… J-P Galhano
[Continue lendo]A “questão homérica”, assim chamada, não porque haja evidência de que Homero a tenha formulado, mas porque se refere à autoria dos seus textos, desenvolveu-se notavelmente no século XIX d.C., acompanhando um movimento crítico que então versava sobre o texto bíblico. Porém, já na Antiguidade esta questão fora colocada em termos críticos. Cícero, que viveu entre os anos 106 e 43 a.C., sugeriu que os textos homéricos então conhecidos fossem uma revisão que Pisístrato fizera à obra de Homero. Por seu turno, Josefo, um historiador judeu do séc. I d.C., aventou a hipótese de Homero não saber escrever, o que ...
[Continue lendo]Os Sumérios, sendo um povo não semita nem indo-europeu, foram culturalmente dominantes entre meados do IV milénio e o início do II milénio a.C., tendo vivido no Sul da Mesopotâmia, na zona do actual Sul do Iraque e Kuwait. Os seus conceitos religiosos e espirituais influenciariam todo o Oriente Antigo e por essa via as tradições posteriores. Uma das maiores invenções dos Sumérios foi a escrita. Usando caracteres cuneiformes, produziram literatura épica e mítica, hinos e lamentações, provérbios e “ditos sapienciais”. Segundo Samuel Noah Kramer, um dos pioneiros na investigação desta literatura, as obras-primas sumérias são comparáveis à literatura grega ...
[Continue lendo]