Cecília Meireles > Canção nas águas

Béla Iványi Grünwald, Woman by the Water, 1897, oil on canvas.

Acostumei minhas mãos
a brincarem na água clara:
por que ficarei contente?
A onda passa docemente:
seus desenhos – todos vãos.
Nada pára.

Acostumei minhas mãos
a brincarem na água turva:
e por que ficarei triste?
Curva, e sombra, sombra e curva,
cor e movimento – vãos.
Nada existe.

Gastei meus olhos mirando vidas
com saudade.
Minhas mãos por águas perdidas
foram pura inutilidade.

MEIRELES, Cecília. Poesia & vaga Música. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2006. p.136.



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