Cecília Meireles > Elegia a uma pequena borboleta

Two Butterflies, circa 1860, woodblock print, horizontal Chuban yoko-e format, 7 1/16 x 9 13/16 in. (17.9 x 24.9 cm). Located in the Brooklyn Museum, Brooklyn, New York, New York, USA.

Como chegavas do casulo,
- inacabada seda viva!-
tuas antenas – fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia.
Como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas.
Minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
é é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, tua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.
- Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
Não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!
Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.
Choro esta humana insuficiência:
- a confusão dos nossos olhos,
- o selvagem peso do gesto,
cegueira – ignorância – remotos
instintos súbitos – violências
que o sonho e graça prostram mortos.
Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!
E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
- os espelhos que refletissem
- vôo e silêncio – os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!

MEIRELES, Cecília. Mar absoluto. Retrato natural. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.


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