Clarice Lispector > A casa angustiada
A casa era alta, e perto, eles não podiam olhá-la sem ter que levantar infantilmente a cabeça, o que os tornou de súbito muito pequenos e transformou a casa em mansão. Era como se jamais alguma coisa tivesse estado tão perto deles. A casa devia ter tido uma cor. E qualquer que fosse a cor primitva das janelas, estas eram agora apenas velhas e sólidas. Apequenados, eles abriram os olhos espantados: a casa era angustiada.
A casa era angústia e calma. Como palavra nenhuma o fora. Era uma construção que pesava no peito dos dois meninos. Um sobrado como quem leva a mão à garganta. Quem? quem a construíra, levantando aquela feiúra pedra por pedra, aquela catedral do medo solidificado?! Ou fora o tempo que se colara em paredes simples e lhes dera aquele ar de estrangulamento, aquele silêncio de enforcado tranqüilo? A casa era forte como um boxeur sem pescoço. E ter a cabeça diretamente ligada aos ombros era a angústia.
LISPECTOR, Clarice. A Mensagem. In: LISPECTOR, Clarice. A Legião Estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p.37.




>Enigmático, mesmo ao jeito de Clarice Lispector. A imagem está excelente no dialogismo com o texto.L.B.
>Bacana o conto. Gostei. Tenho estado ultimamente muito interessado em contos.
>…Um sobrado como quem leva a mão à garganta." É tão forte,avassaladora,cruel,instigante…e,ao mesmo tempo de uma imensa delicadeza,uma clara suavidade, profundidade. A obra da Clarice Lispector emociona, ensina, "revela" a fragilidade e a complexidade do ser humano.Sou apaixonadíssima! Dei uma oficina em 2008(3 meses/1 aula por semana com duração de 3 h)aprendemos muito.Foi maravilhosa, pretendo repetir a dose :o) Obrigada,Dana.abs