Clarice Lispector > Domingo no cais do porto

Oswaldo Goeldi, Mar Calmo, circa 1937, xilogravura a cores, sem numeração, 20,5 x 27,4cm, Coleção Frederico Mendes de Moraes.

Tanto sol, preso ao chão como se nascesse dele. O mar, a barriga do mar, calada, arquejante. Os peixes em domingo, volteando rapidamente as caudas e serenos continuando a abrir caminho. Um navio parado. Domingo. Os marinheiros passeando pelo cais, pela praça. Um vestido cor-de-rosa aparecendo e desaparecendo numa esquina. As árvores cristalizadas em domingo, -domingo é qualquer coisa como árvores de Natal- brilhando silenciosas, contendo, assim, assim, a respiração. Um homem passando com uma mulher de vestido novo. O homem quer não ser nada, anda ao lado dela olhando-a quase de frente, indagando, indagando: diga, mande, pise. Ela não respondendo, sorrindo, puro domingo. Satisfação, satisfação. Pura tristeza sem mágoa. Tristeza que parece vir de trás da mulher de cor-de-rosa. Tristeza de domingo no cais do porto, os marinheiros emprestados à terra. Essa tristeza leve é a constatação de viver. Como não se sabe de que modo usar esse conhecimento súbito, vem a tristeza.

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p.169.



Um Comentário

  1. dade amorim escreveu:

    >Poucas vezes alguém conseguiu dizer as coisas de modo tão cristalino, tão direto que chega a causar estranheza.

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