Clarice Lispector > Entrevista-relâmpago com Pablo Neruda
- Escrever melhora a angústia de viver?
- Sim, naturalmente. Trabalhar em teu ofício, se amas teu ofício, é celestial. Senão é infernal.
- Quem é Deus?
- Todos algumas vezes. Nada sempre.
- Como é que você descreve um ser humano o mais completo possível?
- Político, poético. Físico.
- Como é uma mulher bonita para você?
- Feita de muitas mulheres.
- Escreva aqui o seu poema predileto, pelo menos predileto neste exato momento.
- Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?
- Em que lugar gostaria de viver, se não vivesse no Chile?
- Acredite-me tolo ou patriótico, mas eu há algum tempo escrevi em um poema:
Se tivesse que nascer mil vezes
Ali quero nascer.
Se tivesse que morrer mil vezes
Ali quero morrer…
- Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever?
- Ler minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros no Norte do Chile, no Estreito de Magalhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.
- Em você o que precede a criação, é a angústia ou um estado de graça?
- Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia insensível.
- Diga alguma coisa que me surpreenda.
- 748.
(E eu realmente surpreendi-me, não esperava uma harmonia de números.)
- Você está a par da poesia brasileira? Quem é que você prefere na nossa poesia?
- Admiro Drummond, Vinícius e aquele grande poeta católico, claudelino, Jorge de Lima. Não conheço os mais jovens e só chego a Paulo Mendes Campos e Geir Campos. O poema que me agrada é o Defunto, de Pedro Nava. Sempre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares.
- Que acha da literatura engajada?
- Toda literatura é engajada.
- Qual de seus livros você mais gosta?
- O próximo.
- A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o ‘vulcão da América Latina’?
- Não sabia disto, talvez eles não conheçam os vulcões.
- Qual é o seu poema mais recente?
- Fim do mundo. Trata do século XX.
- Como se processa em você a criação?
- Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.
- A crítica constrói?
- Para os outros, não para o criador.
- Você já fez algum poema de encomenda? Se o fez faça um agora, mesmo que seja bem curto.
- Muitos. São os melhores. Este é um poema.
- O nome Neruda foi casual ou inspirado em Jan Neruda, poeta da liberdade tcheca?
- Ninguém conseguiu até agora averiguá-lo.
- Qual é a coisa mais importante do mundo?
- Tratar de que o mundo seja digno para todas as vidas humanas, não só para algumas.
- O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo?
- Depende da hora do dia.
- O que é o amor? Qualquer tipo de amor?<
- A melhor definição seria: o amor é o amor.
- Você já sofreu muito por amor?
- Estou disposto a sofrer mais.
- Quanto tempo gostaria você de ficar no Brasil?
- Um ano, mas dependo de meus trabalhos.
E assim terminou uma entrevista com Pablo Neruda (…)
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p.185-6.



>O cara quando é gênio ele é genio de verdade… há nessa entrevista respostas que são verdeiras lições. Por ex- Como é que você descreve um ser humano o mais completo possível?- Político, poético. Físico.- Como é uma mulher bonita para você?- Feita de muitas mulheres.Admiravel…
>Esta entrevista de um poeta em cena, encerra o magnânimo pensamento liberto de Neruda, um pablo ou pablito na voz de Vinicius no malfadado ano de 1973, o ano em que deixou a terra para habitar o céu."Diga qualquer coisa que me surpreenda? – 748" – a surpresa presente nas pequenas coisas, as que caminham no mesmo lado da rua, no mesmo lado do mundo. a autenticidade do poeta, a surpresa de um olhar sábio, que observa cuidadosamente e abstrai na súmula dos versos.Grande abraçoJosé