Clarice Lispector > O crime do Prof. de Matemática

“Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão”, pensou o homem. “Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível.”
Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições.
LISPECTOR, Clarice. O crime do professor de matemática. In: LISPECTOR, Clarice. Laços de Família. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. p.124.



>Clarice Lispector, é de uma delicadeza e profundidade que nos paraliza, atônitos, diante da riqueza da sua escritura.Belíssimo!
>Clarisse é espetacular! Arrebatadora como deve-se ser.Muito bom texto mesmo!abraço
>Um homem condenado à sua consciência… que solidão…
>Gostei do conto. Ficou bonito.