DEZFACES > O que é literatura feminina? Para que serve?

Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida (1862-1934)

Nós, seres humanos, desenvolvemos formas complexas de comunicação e expressão. Somos capazes de dizer as mesmas coisas de várias formas, usando suportes diferentes. Sempre foi assim, suponho. Quando ainda éramos primos dos de Neanderthal pintávamos nosso cotidiano nos tetos e nas paredes das cavernas e cientistas israelenses desconfiam até que não apenas grunhíamos, mas já falávamos. Aí começam minhas dúvidas: será que as primas dos homens de Neanderthal podiam desenhar nas paredes e tetos das cavernas? Será que desenhavam escondido no cantinho lá do fundo? Será que os homens percebiam os desenhos delas? Será que eram muito diferentes dos deles? As cenas talvez fossem, mas o traço, e as cores? Bem, essas dúvidas dificilmente serão totalmente esclarecidas, mas vamos caminhando no tempo. O homem aprendeu a falar (as mulheres aprenderam tão bem que não pararam nunca mais) e inventou a escrita. Lógico que isso tudo faz parte de um processo (evolutivo e se é processo é) construído. Difícil saber o papel de homens e mulheres nessa construção. Se tudo fosse compartimentalizado, hoje eu não teria dúvidas. Bem, é fato que nas civilizações antigas, ou na maioria delas, só os homens tinham acesso à língua escrita. Às mulheres era vedado esse direito. Talvez porque os homens as julgassem menos capacitadas, talvez porque não queriam que elas se distraíssem dos seus afazeres, talvez porque não quisessem dividir esse segredo com elas. Aí me atormentam novamente as dúvidas. Será que não aprendiam sozinhas? Será que não escreviam as histórias que inventavam e as escondiam embaixo das pedras, nos buracos das árvores? Será que quando os homens as encontravam sabiam se foram escritas por homem ou mulher? Será que eram felizes assim? Com o tempo as coisas mudaram, mas no mundo das histórias escritas (muitas delas inventadas e contadas por mulheres) continuou dominado por homens. Só os homens sabiam amar a literatura. Só eles a compreendiam, só eles ditavam suas regras, só eles sabiam se ela era boa ou ruim. Assim pensavam, mas havia mulheres escrevendo nos quartos, nas matas, embaixo das árvores, na beira dos rios, contando histórias para seus filhos. Muitas dessas histórias que depois os meninos escreviam. Aí me pergunto: Será que muitos dos escritores da antiguidade, famosos por seus textos, eram homens mesmo? E hoje, será que não existem homens que assinam sua obra como se fossem mulheres? O que é literatura feminina? Existe essa categoria? Para quê que ela serve?

Adriana Versiani

Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida (1862-1934) “viveu parte da infância em Campinas, S.P. Onde estreou sua carreira de escritora, 1881, escrevendo na Gazeta de Campinas. Desde cedo mostrou forte inclinação pelas letras, embora no seu tempo de moça não fosse de bom-tom nem do agrado dos pais, uma mulher dedicar-se à literatura. Numa entrevista concedida a João do Rio entre 1904 e 1905, confessou que adorava fazer versos, mas os fazia às escondidas. Em 28/11/1887 casou-se com um jovem escritor português, Filinto de Almeida, à época diretor da revista A Semana, editada no Rio de Janeiro, que recebeu a colaboração sistemática de Dona Júlia por vários anos. Sua produção literária foi vasta, mais de 40 volumes abrangendo romances, contos, literatura infantil, teatro, jornalismo, crônicas e obras didáticas. Em sua coluna no jornal O País, durante mais de 30 anos, discutiu variados assuntos e fez diversas campanhas em defesa da mulher. Foi presidenta honorária da Legião da Mulher Brasileira, sociedade criada em 1919; e participou das reuniões de formação da Academia Brasileira de Letras, da qual ficou excluída por ser do sexo feminino. Sua coletânea de contos Ânsia Eterna, 1903, sofreu influência de Guy de Maupassant e uma das suas crônicas veio a inspirar Artur Azevedo ao escrever a peça O dote. Em colaboração com Felinto de Almeida, seu marido, escreveu, em folhetim do Jornal do Comércio seu último romance A casa verde, 1932, vindo a falecer dois anos depois, 30/05/1934, na cidade do Rio de Janeiro.” (Nadilza Moreira) FONTE: www.amulhernaliteratura.ufsc.br/

Clique aqui para ler um ensaio sobre Júlia Lopes de Almeida, uma escritora brasileira profícua da qual, provavelmente, você nunca ouviu falar.



5 Comentários

  1. Flor de Lótus escreveu:

    >Olá,Adriana!Confesso que nunca tinha parado para pensar sobre isso,mas com certeza as mulheres da pré-história deveriam ter alguma forma de deixar suas marcas com certeza. Realmente esse lance de literatura feminina ou masculina é só uma forma de dar rótulos, acho que isso não existe na verdade.As mulheres a pouquissimo tempo atrás tiveram a oportunidade de estudarem em escolas normais, antigamente e isso não faz tanto tempo assim, no tempo da minha avó elas eram alfabetizadas em casa e isso bastava.Parabéns pela reflexão!Beijosss

  2. dana paulinelli escreveu:

    >Para apimentar: Seria Shakespeare uma judia disfarçada?Leia aqui a reportagem (em inglês):http://www.haaretz.com/news/was-william-shakespeare-a-jewish-woman-in-disguise-1.246717

  3. dani carrara escreveu:

    >que assunto legal. estava com saudades de ler adriana versiani.fechar tudo isso é limitar muito o nosso olhar, das coisas do mundo…gostei muito abs

  4. Anonymous escreveu:

    >Dani, Bom rever você .Eu ultimamente posso ser encontrada no Escritoras Suicidas. Apareça, por láFlor, o DEZFACES , em todas as suas "dentições" procura fazer uma reflexão sobre literatura. Já vamos entrar na terceira fase do projeto. Em breve, daremos notícia.Dana, valeu demais.Um beijo para todas e até breve,Adriana.

  5. Anonymous escreveu:

    >Você sabe em que bairro do Rio morou Júlia Lopes de Almeida?

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