Drummond > Mãe sem dia

Henri Matisse, Le Rêve, 1940, óleo sobre tela, 81 x 65 cm. Coleção particular.

As mães que já o eram antes de ser instituído o Dia das Mães não se importam muito com ele, e até dispensam homenagens sob esse pretexto. Mas as que cumpriram a maternidade após a sua criação pensam de outro modo, e amam a data.

Edwiges, mãe recente, com filho de ano e meio de idade, não tinha quem celebrasse o seu Dia, pois a criança estava longe de poder fazê-lo.

Comprar para si mesma um presente não tinha graça, e além do mais não havia dinheiro para isso. Aderir à festa das outras mães, que tinham filhos grandes e recebiam homenagens, era como furtar alguma coisa, o que repugnava a Edwiges.

Adormeceu e teve um sonho. O filho crescia velozmente diante de seus olhos e, chegando aos 18 anos, levava para ela o mais lindo ramo de crisandálias e pequeno estojo de veludo.

Abriu-o com sofreguidão e deparou com uma aliança em que estava gravado um nome diferente do seu. Notando-lhe a surpresa, o filho pediu desculpas. O anel era para sua namorada, só as flores lhe pertenciam. E saiu correndo com o estojo e o anel para entregá-los à moça.

Mãe solteira, Edwiges ficou com as crisandálias o tempo daquele sonho. Seu Dia das Mães consistiu em lembrar o sonho.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: Record, 1994. p.89.

3 Comentários

  1. >Ter filhos é errar – rebento erra [pelo e para o] mundo…

  2. sueli aduan escreveu:

    >"Abriu-o com sofreguidão…Grande Drumond!abs

  3. vilma gomes escreveu:

    >vilmagomes,Drumond eMatisse certamente seriam ciosos um com o outro.

Deixe uma resposta


Spam protection by WP Captcha-Free