Drummond > Solange

Pierre Auguste Renoir, O baile no moulin de la galette, 1876, óleo sobre tela, 131 × 175 cm, Museu de Orsay, Paris.
Solange, a namorada. Todas as moças perdiam para Solange. Nenhuma podia competir com ela em matéria de namoro. Os rapazes da cidade só alimentavam uma aspiração: que Solange olhasse para eles. Desdenhavam todas as outras, ainda que fossem lindas, cheias de graça e boas de namorar. Namorar Solange, merecer o favor de seus olhos: que mais desejar na vida?
A nenhum deles Solange namorava. Era uma torre, um silêncio, um abismo, uma nuvem. Sua família inquietava-se com isto e pedia-lhe que pelo amor de Deus escolhesse um rapaz e namorasse. O vigário exortou-a nesse sentido. O prefeito apelou para os seus bons sentimentos. Ninguém mais casava, a legião de tias era assustadora. Temia-se pela ordem social.
O desaparecimento de Solange até hoje não foi explicado, mas dizem que em carta endereçada à família ela declarou que, para ser a namorada em potencial de todos, não podia ser namorada de um só, mesmo que sucessivamente trocasse de namorado. Estava certa de que exercia uma função de sonho, que a todos beneficiava. Mas se não era assim, e ninguém compreendia sua doação ideal a todos os moços, ela decidira sumir para sempre, e adeus.
Adeus? Ignora-se para onde foi Solange, mas aí é que se converteu em mito supremo, e nunca mais ninguém namorou na cidade. As moças envelheceram e morreram, a igreja fechou as portas, o comércio definhou e acabou, as casas tombaram em ruínas, tudo lá ficou uma tapera.
ANDRADE. Carlos Drummond de. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: Record, 1994. p.148.



>"tapera"… Pois, "tapera" não estou a ver o que seja, mas imagino um local desolado. Será?
>Sim, tapera é isso mesmo: um aldeamento ou povoação abandonada; uma construção em ruínas, qualquer local destruído. Colocar uma foto p/um conto é sempre mais difícil, pq uma narrativa tem um antes e um depois, um protagonista e os figurantes, vários cenários… P/este conto pensei em colocar vários rapazes, uma moça de aspecto distante, desinteressado e até mesmo a tapera, mas preferi imaginar uma Solange auto-suficiente, com aspecto onírico, de uma felicidade inatingível, em algum lugar não identificado. Este o meu imaginário mais forte em relação a este conto.