Fernando Pessoa > A liberdade é a possibilidade do isolamento

Joan Miró. Hermitage. 1924. Oil, pencil on canvas. 114.3 x 147 cm.

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo. Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.

PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: Cia das Letras, 2006, p.278.

3 Comentários

  1. danapaulinelli escreveu:

    >Hoje contrario meu princípio de não comentar as poesias do blog. Gosto que elas falem por si e não que eu fale por elas. Mas hoje quero comentar o que me chamou a atenção neste Imaginário Poético. Sei que esta é uma posição polêmica e não concordo com todos os argumentos de Pessoa, nem mesmo com todas as palavras escolhidas. Acredito na necessidade de se cultivar momentos de isolamento -não de solidão- ao lado de momentos de convívio. Um equilíbrio quase grego, da justa medida aristótelica, embora pense também que esta é inatingível, pois somos fadados a sermos seres da justa desmedida. Mas o fato é que, nesse tempo de intensas relações virtuais, cabe-nos um pouco de reflexão sobre as nossas, não as dos outros, sobre as nossas próprias razões para participarmos de Twitter, Facebook, Orkut e afins. Usá-los? Sim! Mas sem perder a liberdade que um certo recolhimento cultiva… Nesta perspectiva, a imagem arquetípica do eremita como ser de isolamento e de liberdade, utilizada por Pessoa, remete-nos a reflexão sobre a motivação que fundamenta nosso excesso de convívio na modernidade, ainda que seja este um convívio "virtual", mas isso é assunto para uma outra poesia…

  2. Leonardo Schabbach escreveu:

    >Eu tenho que dizer que concordo com Pessoa. Ser livre é ter a possibilidade de deixar tudo e todos para trás. Se você não pode largar determinado trabalho porque precisa de dinheiro para viver, não é livre, se sente uma necessidade tão forte de estar perto de determinadas pessoas também não é livre, pois deixará de fazer muita coisa para ficar ao lado dessas pessoas, às vezes será obrigado a fazer algumas coisas por isso. Ser livre é justamente não ter nenhuma dessas limitações.

  3. Ruth escreveu:

    >Me gusta esta sutil explicación de la libertad, que tanto se nos escapa de nuestro entendimiento, quizá si entendiésemos realmente su significado seríamos más libres.En cuanto a tu comentario, las herramientas de las nuevas tecnologías siendo buenas en su idea y creación, desgraciadamente caen en manos innexpertas, curiosamente carentes del entendimiento de la palabra "libertad", y acaban ultrajadas incluso convertidas en instrumentos diabólicos.Gracias Dana por tus aportes reflexivos.Besos.

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