Hades, Perséfone, Romã

Alphonse Mucha, Spring, Seasons Series, 1896, color lithograph. 28 x 14.5 cm.
No início do poema “Purple Anemones” de D. H. Lawrence (incluído na colectânea Birds, Beasts and Flowers!), escreve-se que a divindade que nos outorgou as flores (e flores neste contexto significa passagem para a Primavera) foi Hades, Dis, o deus dos infernos. A pequena traição feita à versão canónica do mito, que nos diz que é Deméter (Ceres) quem traz consigo as estações visa o contraste e quase roça o paradoxo: o deus dos mortos arrasta à sua passagem à vida, obscura, irredutível força de vida, uma vez que a Primavera se produz à custa do rapto de Perséfone. Deméter é defraudada do que fora.
Isto é, na versão canónica do mito, a terra é privada da sua fertilidade, as árvores deixam de produzir frutos, os campos trigo, tudo seca numa terrível esterilidade: a deusa, depois do rapto da filha, recusa-se a regressar ao Olimpo até que Perséfone lhe seja devolvida, como resultado, nada floresce. A terra só voltaria a florescer depois de a filha lhe ser devolvida.
O próprio Zeus pede a Hades que devolva Prosérpina a Ceres. O deus dos mortos acede. Mas antes fará a rapariga provar o fatídico bago de romã que a prenderá para sempre ao mundo dele, que a forçará a regressar. No tempo em que Perséfone está junto da mãe, Deméter produz a Primavera e produz o Verão. Quando a filha se retira para junto do marido, vem o Outono e mais tarde, quando a saudade se torna mais profunda, o Inverno.

Alphonse Mucha, Autumn, Seasons Series, 1896, color lithograph. 28 x 14.5 cm.
No poema de D. H. Lawrence escreve-se:
When she broke forth from below,
Flowers came, hell-hounds on her heels.
Dis, the dark, the jealous god, the husband,
Flower-sumptuous-blooded.Go then, he said.
And in Sicily, on the meadows of Enna,
She thought she had left him;
Hut opened around her purple anemones,
Caverns,
Little hells of colour, caves of darkness,
Hell, risen in pursuit of her; royal, sumptuous
Pit-falls.All at her feet
Hell opening;
At her white ankles
Hell rearing its husband splendid, serpent heads,
Hell purple, to get at her –
Why did he let her go?
So he could track her down again, white victim.
O deus deixa-a partir apenas para a poder arrebatar de novo. O abdicar dele, pequeno jogo, é a força terrível que arrasta a Primavera, a misteriosa força que a vontade do deus dos mortos exerce a partir do seu mundo subterrâneo sobre a terra, acidentalmente. O que é surpreendente é que esperaríamos o contrário, esperaríamos que fosse a alegria de Deméter a reger o cortejo da Primavera e das suas flores, porque é isso que está implícito na versão canónica do mito.
Se quiséssemos simplificar o poema, reduzi-lo a um significado básico que lhe fosse imputado por nós, talvez pudéssemos dizer que as mais belas flores não brotam afinal da alegria genuína da cansada Deméter que no ultimo instante do Inverno recebe a filha para que se lance de novo em Primavera, mas do desejo egoísta e belo do amante obscuro, que abdica do objecto do seu desejo apenas para o poder mais tarde perseguir.
E é desta força que parece precipitar-se no ocaso (a Primavera de Deméter seria o Outono de Hades e vice-versa), do desejo adiado, que brota a Primavera. Tom Waits, uns anos mais tarde, viria a cantar: “You can never hold back spring, even though you lost your way, the world keeps dreaming of spring.”
Depois lembrei-me, inconsequentemente para o sentido deste texto, dos painéis de Mucha, que para lá das palavras, seguraram igualmente, literalmente, Primavera e Outono, aparentemente contrários, maneira de dizer que caminhamos de um oposto a outro pela mera condição do tempo e que por isso mesmo nunca poderás adiar a Primavera, segurá-la para ti. Isto é, esta faca de dois, a Primavera virá, mas tendo partido, tu já não a poderás segurar exactamente como foi.
Tatiana Faia



poxa, q massa
Caraca Tati, delícia de texto. Talvez pra nós aqui no hemisfério norte, isso seja uma máxima! Eu tenho vontade de agarra-la pelos pés, ela, a Primavera. Mas ela escorre furtiva pelos dedos… Como tudo. <3