O Poético: Magia e Iluminação

Max Ernst, La cour du dragon, colagem da série Une semaine de bonté, 1933.
O símbolo e arredores: O Filho de Satã – Baudelaire
“Num dos projetos de prefácio para As flores do Mal, Baudelaire escreveu: “poetas ilustres tinham dividido há muito tempo as províncias floridas do domínio poético. Pareceu-me prazeroso, e tanto mais agradável, porque a tarefa era mais difícil, extrair a beleza do Mal”. Desse modo, acentuava o caráter inusitado de sua poesia. Com efeito, na brumosa Paris dos meados do século XIX, mais precisamente em 1857, vem a público um livro que exala um perfume estranho, mortal. Imagens grotescas aninham-se entre essas páginas: cinicamente, o poeta fala de monstros, aleijões, fantasmas, súcubos, demônios que contracenam com cortesãs destituídas de ternura ou grandeza amorosa. Um enforcado apodrece devorado por aves negras, enquanto um crente ergue uma prece a seu senhor, Belzebu. A cidade incha, alarga-se, sob a chuva amarela do Outono: na lama cheia de vermes, esponjam-se os cativos, os vencidos. Os amantes contemplam uma carcaça, na qual fervilham vermes e moscas: o futuro da corrupção convive com a imagem do amor. Mundo sem esperanças: os sonhos infantis esbarram na limitação do mundo ─ os viajores deparam com um mar finito, e as terras por conquistar, Américas, Índias e Chinas, como a ilha de Citera, transformaram-se em arremedo dos velhos redutos míticos. Mas a podridão, os vermes, a lama têm uma nova luminescência: o olhar que se compraz com o sórdido investe as imagens de beleza. O Belo nasce do Mal, já que só o Mal existe, já que o Bem é ilusão ou faz parte de um repertório poético desgastado pelos clichês, pertinentes a um tempo dentro do qual o homem ainda podia imaginar o paraíso…”

Max Ernst, La boue et le Lion de Belfort, colagem da série Une semaine de bonté, 1933.
O Poético: Magia e Iluminação
“Os ensaios aqui reunidos caracterizam-se não só pela atualidade dos problemas discutidos, como também pela linguagem polêmica e original. Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Camilo Pessanha, Traki, Garrett, Drummond, são alguns dos poetas que balizam esta indagação crítica sobre a essência do poético. Divididos em duas partes, os estudos focalizam, na primeira, o Simbolismo europeu, procurando detectar a emergência de uma “linguagem simbólica”, entrevista na exploração de símbolos e mitos recorrentes; na segunda, contrastam poetas da Literatura Colonial, do Romantismo, do Realismo e do Modernismo, discutindo os efeitos da poesia no público leitor. Assim, mais do que uma compreensão particular e restrita da obra de diferentes poetas, O Poético: Magia e Iluminação, de Álvaro Cardoso Gomes, pretende chamar a atenção para a especificidade da linguagem poética e para a função da poesia na sociedade. De um lado, ilustra o caráter único, essencial da palavra poética, a qual, através, da imagem, recupera o mundo, sem o desgaste do utilitarismo, responsável pelo esvaziamento da linguagem, reduzida a signos transparentes e unívocos. De outro, aponta a magia inerente ao processo poético, que ilumina o mundo e resgata o homem da alienação, através do choque sistemático do novo.”
REFERÊNCIAS
GOMES, Álvaro Cardoso. O Poético: Magia e Iluminação. São Paulo: Perspectiva,1989.
_______ A estética simbolista. 1ª ed. São Paulo: Cultrix, 1985; 2ª ed. São Paulo: Atlas, 1993.
_______ A poética do indizível. São Paulo: Unimarco, 2001.
_______ O Simbolismo. São Paulo: Ática, s/d. Disponível neste link.



>Dana, minha querida,Bem forte com as imagens de Max Ernst que escolheu, mas perfeito, bastante coerente com o conteúdo. ADOREI!!!obrigada,abs
>[...]"Pois o Belo nada mais é do que o começo do Terrível que ainda suportamos; e o admiramos porque, sereno, desdenha destruir-nos." Assim disse o Rilke, com propriedade. O que se equilibra no trapézio da crise, do caos, do escatológico, (re) lembrando a necessidade e as esperas pelo Fim, com certeza fala mais à minha alma do que um lirismo repleto de falsas promessas de otimismo. É como diz o Yeats em "A segunda vinda":Desce a treva outra vez; mas sei agoraQue vinte séculos de um sono pétreoLevou ao pesadelo um simples berço;E, chegada a ocasião, que rude feraSe arrasta até Belém para nascer?Os pesadelos nos livram da falsa calma da realidade.
>[...]"Pois o Belo nada mais é do que o começo do Terrível que ainda suportamos; e o admiramos porque, sereno, desdenha destruir-nos." Assim disse o Rilke, com propriedade. O que se equilibra no trapézio da crise, do caos, do escatológico, (re) lembrando a necessidade e as esperas pelo Fim, com certeza fala mais à minha alma do que um lirismo repleto de falsas promessas de otimismo. É como diz o Yeats em "A segunda vinda":Desce a treva outra vez; mas sei agoraQue vinte séculos de um sono pétreoLevou ao pesadelo um simples berço;E, chegada a ocasião, que rude feraSe arrasta até Belém para nascer?Os pesadelos nos livram da falsa calma da realidade.
>Obrigada, Alisson.abraços
Pisei aqui no Imaginário Poético, por acaso, em consequência de um bisbilhotar e o que ganho?
Já comprei o Livro : O POÉTICO: MAGIA E ILUNMINAÇÃO DE Álvro Cardoso que leio agora. Voltei para agradecer. Valeu!