Há um homem diferente no pátio. Vê-se que ele ama Jesus mais do que a si mesmo. Não posso precisar a que ponto ele se ama, mas é mais. Isso está bem claro. Chama-se Judas, o Iscariote. O amor desse homem é diferente do meu amor: é um amor de mandíbulas cerradas, de olhar oblíquo, de desespero escuro. Todas as vezes que o vejo, penso: não seria mais sensato se Jesus o afastasse de vez? Ao mesmo tempo em que penso assim, penso também: não seria justo afastar o único homem que ama dum jeito de homem, o único ...
[Continue lendo]Não gosto de lavar a cabeça à noite porque tenho a cabeça muito sensível, já fui a vários neurologistas, e eles dizem que a minha cabeça é muito boa, e que não podem saber o que se passa nela, aliás, com ela, e me receitam Beserol e eu tomo Beserol e não adianta muito. Os neurologistas são estranhos. Um deles está estudando o hipotálamo há mais de trinta anos e ainda não chegou a qualquer conclusão. Sempre que me encontro com ele, pergunto: e o hipotálamo? Ele responde: meu filho, é um mistério, é um autêntico mistério. Às vezes penso ...
[Continue lendo]Meu amigo sofreu muito. Mas, sem indicar insensibilidade nele (aliás era natural que não amasse muito um pai que fora indiferentemente bom) me parece que a dor maior de Frederico Paciência não foi perder o Pai, foi a decepção que isso lhe dava. Sentiu um espanto formidável essa primeira vez que deparou com a morte. Mas fosse decepção, fosse amor, sofreu muito, Fui eu a consolar e consegui o mais perfeito dos sacrifícios, fiquei muito mudo, ali. O melhor alívio para a infelicidade da morte é a gente possuir consigo a solidão silenciosa de uma sombra irmã. Vai-se pra fazer ...
[Continue lendo]A beleza é uma coisa terrível e horrível! Terrível porque indefinível, e impossível de definir porque Deus só nos propôs enigmas. Aí os extremos se tocam, aí todas as contradições convivem. Eu, meu irmão, sou muito ignorante, mas tenho pensado muito nisso. Existe um número formidável de mistérios! Um número excessivo de enigmas oprime o homem na Terra. Decifra-os como és capaz e sai enxuto da chuva. A beleza! Não posso, ademais, suportar que algum homem, até de coração superior e de inteligência elevada, comece pelo ideal de Madona mas termine no ideal de Sodoma. Ainda mais terrível é aquele ...
[Continue lendo]As mães que já o eram antes de ser instituído o Dia das Mães não se importam muito com ele, e até dispensam homenagens sob esse pretexto. Mas as que cumpriram a maternidade após a sua criação pensam de outro modo, e amam a data. Edwiges, mãe recente, com filho de ano e meio de idade, não tinha quem celebrasse o seu Dia, pois a criança estava longe de poder fazê-lo. Comprar para si mesma um presente não tinha graça, e além do mais não havia dinheiro para isso. Aderir à festa das outras mães, que tinham filhos grandes e ...
[Continue lendo]“Candido Portinari nasceu no dia 30 de dezembro de 1903, numa fazenda de café em Brodoswki, no Estado de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, de origem humilde, recebeu apenas a instrução primária e desde criança manifestou sua vocação artística. Aos quinze anos de idade foi para o Rio de Janeiro em busca de um aprendizado mais sistemático em pintura, matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes. (…) Vai para Paris, onde permanece durante todo o ano de 1930. Longe de sua pátria, saudoso de sua gente, Portinari decide, ao voltar para o Brasil em 1931, retratar nas suas telas ...
[Continue lendo]I Os inventariantes pedirão conta dos cílios Apedrejados. Das madeiras inertes e dos cabelos Perdidos e dos egoísmos. Das penas das aves Das chuvas inúteis. Dos furacões e dos ventos II Dos espaços perdidos. Das lágrimas secas Dos carvões em brasa e das fogueiras de São João. Das violetas sob a terra nos cemitérios Das cores das môças morenas. III Das gotas d’água afundadas nas pedras. Dos laranjais Sem laranja e das malvadezas. Das águas constantes e Da lepra. Quem responderá? Os inventariantes quererão saber Dos feios e dos pequenos funcionários que estão sempre IV Nas filas, filas de caixões ...
[Continue lendo]Vim da terra vermelha e do cafezal. As almas penadas, os brejos e as matas virgens Acompanham-me como o espantalho, Que é o meu auto-retrato. Todas as coisas frágeis e pobres Se parecem comigo. [Candido Portinari] FONTE: Projeto Portinari: Centenário Portinari 2003 |2004. “No dia 9 de fevereiro de 1962, três dias após a morte de Candido Portinari, o poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, publica o poema “A Mão”, do qual estes trechos selecionados encerram esta palestra e este texto: Entre o cafezal e o sonho o garoto pinta uma estrela dourada na parede da capela. […] A mão sabe ...
[Continue lendo]- Que ela é imbecil, é, assim como eu; agora tu, o que és, um sabichão, que fica aí deitado feito um saco e ninguém te vê fazendo nada? Antes tu dizias que saías para dar aulas a crianças; e agora, por que não fazes nada?- Eu faço… – pronunciou Raskólnikov sem querer e em tom severo.- O que?- Um trabalho…- Que trabalho?- Penso – respondeu sério, depois de uma pausa.Nastácia rolou de rir. (…) DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. São Paulo: Ed. 34, 2001.
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