“Nasceu em Belém do Pará, a 09 de outubro de 1900 e faleceu no Rio, em 6 de Abril de 1934. Tinha gôsto e talento para tôdas as artes, mas cultivou de preferência a pintura, tendo deixado neste domínio uma obra importante, ainda não convenientemente estudada. Depois de sua morte, viemos a saber que era também poeta, por uma série de poemas publicados na Revista ‘A Ordem’, números de Fevereiro a Abril de 1935, por iniciativa de seu grande amigo Murilo Mendes. Vinham os poemas acompanhados de notas e comentários, que explicavam a concepção que do mundo e da arte ...
[Continue lendo]“A carreira do pintor Ismael Nery não seguiu uma linha de evolução definida. Ele era solicitado por tendências opostas, não tendo compromissos com nenhum grupo ou doutrina estética. Atraíam-no muito os mestres clássicos, mas não há dúvida de que o substrato romântico do seu espírito era de tal forma rico e fecundo que Ismael pode mergulhar sempre nele, sem artificialismo nem constrangimento. Por aí se vê que Ismael não usou o romantismo como atitude estética. Possuía uma consciência superlativa da dualidade espírito-matéria, sabendo que ampliação do conflito dá riqueza à vida do homem em geral e do artista em particular. ...
[Continue lendo]Queridos, apresento a vocês uma verdadeira raridade que garimpei em um sebo: um poema de Di Cavalcanti publicado na Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, organizada e apresentada por Manuel Bandeira em 1946. Mas deixo que o próprio Bandeira apresente o pintor como poeta: “O seu verdadeiro nome é Emiliano Cavalcanti, mas sempre se assinou Di Cavalcanti, e às vezes Emiliano Di Cavalcanti. (…) Teve atuação saliente no movimento modernista; foi mesmo dêle que partiu a idéia da ‘Semana de Arte Moderna’, realizada em São Paulo em fevereiro de 1922. (…) Se Di Cavalcanti não fôsse por vocação pintor, poderia ...
[Continue lendo]“Aristóteles, em sua Poética, afirma que a poesia é mais ‘filosófica e séria do que a história’. A poesia, para o filósofo, não é entendida no sentido estreito de obra em versos, mas no sentido de obra literária em geral – a poesia é poiesis. A poesia, para ele, ‘tende a oferecer verdades gerais, enquanto a história dá fatos particulares’. Guimarães Rosa abre Tutaméia, o último livro de contos que publicou em vida, com uma clara alusão a essa afirmação de Aristóteles. De fato, o primeiro prefácio do livro, intitulado ‘Aletria e hermenêutica’ inicia-se com a assertiva: ‘A estória não ...
[Continue lendo]No inferno deve haver um lugar à parte para os medíocres, e o próprio Satã, contemplando a presa inerte, tridente erguido, deverá indagar de si mesmo um tanto perplexo: “Que farei com isto, se até o sofrimento em sua presença diminui de intensidade?” CARDOSO, Lúcio. Crônica da Casa Assassinada. 50 anos de publicação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p.111,112.
[Continue lendo]A menina tinha os cabelos louros. A boneca também. A menina tinha os olhos castanhos. Os da boneca eram azuis. A menina gostava loucamente da boneca. A boneca ninguém sabe se gostava da menina. Mas a menina morreu. A boneca ficou. Agora já ninguém sabe se a menina gosta da boneca. E a boneca não cabe em nenhuma gaveta. A boneca abre as tampas de todas as malas. A boneca é maior que a presença de todas as coisas. A boneca está em toda a parte. A boneca enche a casa toda. É preciso esconder a boneca. É preciso que ...
[Continue lendo]Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade. A erudição da sensibilidade nada tem a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar. PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: ...
[Continue lendo]“Só as pessoas realmente fortes podem viver na realidade definitiva das coisas;quase todo mundo vaga numa atmosfera morna de fantasia.”Lúcio Cardoso CARDOSO, Lúcio. Diário do Terror. Citado por SEFFRIN, André. Uma Gigantesca Espiral Colorida. In: CARDOSO, Lúcio. Crônica da Casa Assassinada. 50 anos de publicação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p.7.
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