Rosângela Rennó e Alícia Penna > Espelho Diário

a fugitiva Será que eu estou com alguma coisa aqui no peito mesmo? Será? Que nada! Se estivesse, eu estava sentindo! Eu não estou sentindo é nada! Nada! Minhas asas são como uma couraça de aço! Pode vir o fogaréu! Pode vir o rolo de fumaça! Pode vir o cacete, a biriba, o birro, o bordão, a borduna, a cachamorra, a cacheira, a maça, a manguara, a moca, o porrete! Pode vir: não fico ferida, não fico em estado grave, não morro, não! Ela corre em círculos pelo ateliê, as luzes acesas. Os cabelos estão soltos. A cena e o enquadramento são idênticos aos do Espelho do dia anterior. Há uma continuidade. Porque lhe vem a dúvida (“será que…”), ela pára, recomeçando a correr à medida que a dúvida vai sendo vencida, voltando ao ritmo inicial quando a dúvida é vencida.
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a artista plástica Pause; divagando, olhando para o infinito. Ontem, abertura da coletiva no CCBB. Denise is calling. Como já dizia Leminski, o Paulo, “não se faz mais tempo como antigamente”. Não se faz mais abraço-beijo-pedaço-de-queijo como alhures. Na festa, ouço gritos de elefante, os mais terríveis. (Os mais terríveis, posto que vêm de um enorme corpo que, apesar de doer enormemente, não aparenta capacidade alguma de doer nem, portanto, necessidade alguma de ser cuidado. Os mais terríveis, posto que tudo isso os obrigou a ser agudos, incompatíveis com o corpo de onde vêm, guinchos. Os mais terríveis, posto que não respondem a ataque algum, já que nenhum animal ataca o maior dentre eles, o enorme. Os mais terríveis, posto que vêm de uma dor própria, a maior dentre elas, a enorme.) “Noite estranha”, diz o jornal. O funcionário público -este, sim, modesto porém sincero- diz gostar de algumas coisas e de outras -as que ele não compreende, “mas dizem que é arte, não é?”-, não. Do Candelária, ele gosta. Esta é uma felicidade: a comunicação. E.T. phoned home. Amanhã construo de novo meu elefante. De novo, chamaremos. Pausa longa. A artista no banho de espuma. Close no rosto. A fala da artista é, no fundo, sobre cariocas e vernissages. A linguagem é cifrada, obviously. Nela cabem dois filmes (E.T. e Denise calls up), um poema do Leminsky (Blade Runner Waltz), outro do Drummond (O elefante), o pior grito de dor. O que motiva a reconstrução diária do elefante é a possibilidade de comunicação. Entre a namorada do político e a artista plástica há continuidade, ainda que pelo contraste. Para a primeira, aparecer é diferenciar-se, é destacar-se, é fama e dinheiro. Para a artista, aparecer é parecer, é comunicar-se com o outro. Para a primeira, aparecer é ser olhada a distância. Para a segunda, é ver-se (ou àquilo que mostra, a obra) nos olhos do outro, é chamar.
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a testemunha sequestrada Habeas corpus! Habeas corpus! Eu quero o meu corpo de volta! O que me importa o que eu vi no escritório de Bangu? Nada! Sou capaz, muito capaz de esquecer isso. Pronto, esqueci. Só não posso esquecer de tudo o mais que eu vi! Só não quero que tudo isso desapareça! Só não quero não ver mais! Só quero que tudo o mais possa aparecer para mim: as coisas, os bichos, as pessoas, os movimentos! Só quero poder aparecer para os outros de novo, mexendo, falando, andando! Eu quero existir, pronto. É pedir muito? É muito? O corpo e uma existência para ele? É? Hein? Hein? Ela continua em cativeiro. A cena nas duas telas, Imagem e Espelho, é idêntica, entretanto, com um ligeiro retardo no espelho, para intensificar a dramaticidade, como um eco no vazio. A roupa ainda é a mesma usada no dia 14 de maio, já que se trata da mesma R.

ESPELHO DIÁRIO | INSTALAÇÃO MULTIMÍDIA E LIVRO
“Espelho Diário é uma instalação multimídia resultante da parceria entre a artista Rosângela Rennó e a escritora convidada Alícia Duarte Penna. Convertida em atriz, Rosângela Rennó encarna 133 personagens, num vídeo de duas horas de duração exibido em duas telas dispostas em ângulo, nas quais as imagens se desdobram como em um caleidoscópio. Porém, ao contrário do caleidoscópio, o que se pretende no vídeo-longa é reunir aqueles múltiplos reflexos num único espelho.
O título da instalação é uma referência ao jornal inglês Daily Mirror, conhecido pelo seu conteúdo sensacionalista. As personagens foram inspiradas em notícias -de jornais brasileiros- que envolviam alguém cujo nome é ‘Rosângela’. Colecionadas durante oito anos, entre 1992 e 2000, essas notícias foram organizadas num diário-colagem pela artista, e recontadas, sob a forma de monólogos, pela escritora. Os 133 monólogos constituíram, assim, um diário, que condensa oito anos em um, de uma personagem múltipla nomeada ‘Rosângelas’. Roteirizado, o diário foi gravado em vídeo pela artista, que opera a câmera tal como um espelho: diário, confessional.
O ‘Intróito’, que apresenta a personagem ‘Rosângelas’, foi, na instalação, narrado por Cid Moreira. O ‘Epílogo’ trata estatisticamente os fatos ocorridos com a personagem, na tentativa, vã, de conferir-lhe alguma unidade. Em ‘Intróito’ e ‘Epílogo’, a escritora evidencia o deslocamento entre objeto e sujeito no jogo de reflexos em que se envolveu(ram) aquela(s) ‘Rosângelas’ do Brasil, inclusive a própria artista, personagem de um dos dias do ‘Espelho Diário’.
Até o momento, a instalação foi apresentada no Instituto Tomie Ohtake (São Paulo, 2001), no Museu do Chiado (Lisboa, 2001), no Museu de Arte da Pampulha (Belo Horizonte, 2002), no Novo Museu (Matéria Prima, Curitiba, 2002), no Centro Cultural Banco do Brasil (Rio de Janeiro, 2003), no Museu de Arte Contemporânea de Goiânia (Vidia-arte/Prêmio Cultural Sérgio Motta- 2002, Goiânia, 2003), no Espaço Cultural Contemporâneo – ECCO- Venâncio (Fotoarte 2004, Brasília, 2004), e na Galeria Vermelho (São Paulo, 2008). Na sua versão em inglês, dublada pela artista, foi apresentada na Galeria Lombard Freid Projects (Nova Iorque, 2003) e no National Museum of Wales (ArtesMundi 3, Cardiff, 2008). E, na versão em francês, igualmente dublada pela artista, nos espaços culturais Passage du Désir (Festival d’Automne à Paris, Paris, 2005) e Hotel Fontfreyde (Festival Vidéoformes, Clemont-Ferrand, 2007).
O que se apresenta neste livro é uma espécie de ‘making-em-off’ do vídeo, em que o diálogo entre a artista e a escritora durante o processo de elaboração do roteiro pode ser ouvido pelo leitor, enquanto vê as imagens congeladas da(s) ‘Rosângelas’, no Espelho Diário agora impresso.
ALÍCIA DUARTE PENNA e ROSÂNGELA RENNÓ nasceram em Belo Horizonte, em 1962. Formaram-se em Arquitetura pela UFMG em 1986. Rosângela é Doutora em Artes pela ECA-USP, e Alícia, Doutoranda em Geografia Urbana pelo IGC-UFMG. Alícia mora em Belo Horizonte, é escritora e professora da PUC Minas. Rosângela mora no Rio de Janeiro e é artista multimídia.”
In: RENNÓ, Rosângela, PENNA, Alícia Duarte. Espelho Diário. Belo Horizonte: Editora UFMG, São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.
Clique aqui para ler uma entrevista que Rosângela Rennó concedeu à Paula Alzugaray e assista abaixo a uma parte da vídeo-instalação, com narração em inglês. Clique aqui para assistir ao mesmo trecho com narração em português, disponível apenas no site da artista > www.rosangelarenno.com.br


