Tsvétaïeva por Tsvétaïeva

 

Em abril de 1926, Bóris Pasternak enviou uma carta a Marina Tsvétaïeva pedindo-lhe que respondesse um questionário -expedido pelo Gabinete de Literatura Revolucionária da Divisão de Estudos das Artes da Revolução da Academia das Ciências das Artes (!)- para que Tsvétaïeva entrasse no Dicionário dos escritores do século XX. Com exceção de dados objetivos -tais como nome, local e data de nascimento, origem social e instrução- ela não se atém às formalidades das perguntas, deixando evidente seu espírito forte e brilhante. Transcrevo, agora, algumas de suas respostas.



 

 

Marina Ivanovna TSVÉTAÏEVA

Nascida a 26 de Setembro de 1892 em Moscovo.
Nobreza.
(…)
Influência dominante de minha mãe (música, natureza, poesia, Alemanha. Paixão pelo judaísmo. Só contra todos. Eroica.) Influência mais secreta, mas não menos forte, do pai (paixão pelo trabalho, ausência de arrivismo, simplicidade, renúncia). Influência conjunta do pai e da mãe: carácter espartano. Dois leitmotive na mesma casa: Música e Museus. Ambiente não burguês, nem intelectual: mas de cavalaria. Vida segundo um sentido elevado.
(…)
Os livros que mais gosto no mundo, e pelos quais me deixaria queimar: Os Niebelungen, a Ilíada, A Gesta do Príncipe Igor.
Os meus países preferidos: a Grécia antiga e a Alemanha.
(…)
Menção sobre a minha primeira redacção de francês (11 anos): Trop d’imagination, trop peu de logique.
Comecei a escrever versos a partir dos 6 anos. E desde os 16 que publico. Compus também em francês e alemão.
A minha primeira colectânea chamava-se Álbum do Anoitecer. Eu própria a distribuí, estando ainda no colégio.
(…)
Escritores preferidos (contemporâneos): Rilke, R. Rolland, Pasternak. Publiquei nas seguintes revistas: As Notas do Norte (1915) e hoje no estrangeiro principalmente em La Liberté de Russie, em Nos propres voies, e em Le Bien-intentioné (de esquerda), parcialmente em Les Notes Contemporaines (mais à direita). Devido à sua profunda incultura, não publico nada na imprensa da direita.
Nunca pertenci nem pertenço a nenhuma tendência poética ou política. Aderi à União dos Escritores e acho que também dos Poetas, por razões estritamente materiais.
O que mais prefiro no mundo: a música, a natureza, os versos, a solidão.
Indiferença absoluta em relação à opinião pública, ao teatro, às artes plásticas, ao espetáculo. O meu sentido de propriedade limita-se aos meus filhos e aos cadernos de notas. Se tivesse uma divisa nela teria inscrito Ne daigne.
A vida é uma gare, estou prestes a partir, mas não direi para onde.
Marina Tsvétaïeva

RILKE, PASTERNAK, TSVÉTAÏEVA. Correspondência a três. Coordenação e organização de Lily Denis. Tradução do francês de Armando Silva Carvalho. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006. p.97-101.


2 Comentários

  1. Antônio Zumpano escreveu:

    >Todo dia alguém inventa uma grafia diferente para os nomes russos. Quantas vezes será necesário falar que i não tem dois pingos?!A última tradução do romance Anna Karenina o tradutor escreveu Anna Kariênina e falou que essa é a pronúncia certa. Já não basta agüentar Anna com dois enes?O tradudor certamente é português e manteve a grafia francesa que coloca descabidamente dois pingos no i, como em Anais Nïn.

  2. dana paulinelli escreveu:

    >Sim, esta é uma tradução portuguesa.Sou uma tradutora e respeito as traduções.Uma pena que vc tenha se detido nesta questiúncula e, assim, não tenha conseguido apreciar as respostas que, sendo de Tsvétaïeva/Tsvétaieva/Tsvetáeva, são em última instância, as respostas de uma poetisa brilhante.

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